Dávidas da Misericórdia Divina e exigências da Justiça Divina

Todo ser, por possuir uma essência – no sentido de possuir aquilo que faz com que ele seja o que é e não seja outra coisa – traz consigo exigências que lhe são próprias. São exigências de sua essência, que correspondem ao que nele é essencialmente necessário, impossível de ser diferente. Por exemplo, a responsabilidade exige a liberdade de tal modo que sem liberdade não faz sentido falar em responsabilidade. Posso falar com razão de responsabilidade no homem, mas não de responsabilidade no sol. Por esta e por outras, a realidade é um cosmos e não um caos. Em sua relação com a Razão Criadora, está cheia de significados, logos, razões.  

Deus é Aquele que possui todas as perfeições do ser em máximo grau. Assim, o Onipoente Criador é sempre justo, todo justiça, a própria Justiça, que Nele é sem começo nem fim, nunca diminuída nem aumentada. A justiça, por ser o que é, exige o que exige, e por isto se pode falar das exigências da justiça divina. Isto significa que Deus nunca age contra a sua justiça, e sim naquilo que ela por assim dizer Lhe permite.

Um ensinamento que Cristo concedeu à mística Santa Brígida é que “Deus não faz justiça sem misericórdia nem bondade sem justiça”. Quer dizer, Misericórdia e Justiça divinas não se opõem, não há contradição entre elas. Por assim dizer são dois nomes para a Bondade Divina, estão unidas a Ela. A Justiça respeita o que a Misericórdia diz e a Misericórdia respeita o que a justiça diz, e nisto Deus sempre decide, decreta, com Sabedoria, por razões de sabedoria.

Tudo o que há está presente em Deus, na Mente Divina que tudo contém e por nada é contida. Isto significa que tudo está simultaneamente presente na Bondade divina, consequentemente na Misericórdia e na Justiça. E como não há indiferença em Deus, ausência de apreciação, para Ele tudo tem um valor, uma importância, e assim quem rejeita as dádivas da misericórdia encontrará as exigências da justiça. É próprio da Justiça exigir o pagamento de toda a dívida e pagar tudo o que deve ser pago. Neste sentido, ante a Justiça divina quem faz o bem merece ser recompensado e quem faz o mal merece ser castigado, isto é, merece receber algum bem ou merece perder algum bem. Cristo, com seu sacrifício de valor infinito, ante a Justiça mereceu para o homem o Céu, graça infinita. Quanto mais semelhante ao Divino Mestre alguém se torna pelos sofrimentos que com Ele sofre, mais glorioso será no Céu, maior será o seu trono, por merecimento, pelo grau de participação nos merecimentos de Jesus, o Salvador. O mesmo Cristo, que adverte como amoroso pai, diz que ao que tem lhe será concedido mais em abundância, mas ao que não tem será tirado até mesmo o que tem, pois o verdadeiro Deus “sacia de bens os indigentes”, “eleva os humildes”, mas “resiste aos soberbos”, “derruba do trono os poderosos” cheios de si.

A cólera de Deus, a ira Divina que se fala nas Escrituras, em um de seus sentidos significa o exercício da Bondade divina enquanto justiça ante a maldade que pede correção, castigo, reparação. Assim, a Sabedoria divina não pervertida pelo homem, cheia de amor misericordioso pelas criaturas que deseja salvar, diz: “procurem minha misericórdia onipotente, não a rejeitem, para que minha justiça não os encontre”. Há o tempo da compaixão e há o tempo da justiça, há o Cristo salvador misericordioso e há o Cristo justo juiz. Há o tribunal da Justina divina, no juízo final pelo qual todos passam, e há o Tribunal da Misericórdia, como é o Sacramento da confissão.  Se tudo isto é verdade, são verdades espirituais vitais.

Assim como a verdade não se mistura com a falsidade, o catolicismo não se mistura com o “espiristismo”

Na vida humana como um todo, o que inclui a religião, é importante possuir na medida do possível a consciência do que é verdadeiro e do que é falso. Por isto, o homem sempre e em tudo deveria desejar toda a verdade e desejar não ser vítima de ilusões. A verdade e a falsidade têm por essência relação com o ser, e neste sentido é verdade o que é realmente assim e falsidade o que não é. Quanto mais importante uma realidade é em si mesma e para a pessoa humana, então mais importante é o verdadeiro e o falso. É mais importante a verdade e a falsidade em religião do que em história do futebol. Se me engano quanto a não existir demônios e inferno ou quanto a existir várias vidas e reencarnações, isto é mais grave do que me enganar na quantidade de copas do mundo que o Brasil tem.

A Sagrada Escritura ensina ter cuidado com os falsos mestres, o que supõe haver verdadeiros mestres. Cristo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vai ao Pai senão por mim”. Ou isto é verdade ou é engano. Se é verdade, então quer dizer que há um só caminho para Deus: Jesus Cristo. Porém, não qualquer Cristo, mas o verdadeiro, o que supõe haver falsos. Exemplo: há uma diferença vital, de vida e de morte, entre espiritismo e catolicismo. O Cristo católico, conforme a totalidade, ensinado pelos Apóstolos é, por exemplo, o Verbo Divino encarnado, o Mestre da Cruz, a Misericórdia, que permanece presente em seu Corpo Místico, a Santa Igreja, nas verdadeiras Palavras Divinas – palavras de vida eterna, que são espírito e vida – e em seu Corpo Eucarístico.  Pelas oposições inconciliáveis que há entre os dois, então em algum deles há ilusões vitais.

Neste sentido, catolicamente falando o espiritismo só pode ser uma falsa religião, seus porta-vozes são falsos mestres e seus espíritos têm um nome: demônios ou almas perdidas, agentes do império infernal. Como a verdade-falsidade importa antes de tudo, isto é o mais importante. Tudo o mais é secundário, é a armadilha diabólica das meias-verdades e da bondade aparente.

A este respeito, exemplo de algo dito pelo místico padre Dolindo Ruotolo: “Em 12 de janeiro de 1909, participei de outra sessão. Como da vez anterior, a mesinha foi movida e levantada. Sem dúvida, ninguém a estava levantando, e é absurda a hipótese natural que alguns fazem de que a mesa é movida por fluidos magnéticos: a mesa movia-se com movimentos sintomáticos, provocados por um ser inteligente, que manifestava uma inteligência própria e ativa… Então me levantei e disse solenemente: “Como sacerdote de Deus, ó espírito maligno… eu ordeno que voltes aos abismos.” A mesinha estremeceu, como se tivesse sido tomada pelo terror, e a sala também estremeceu, e um vaso de porcelana que estava ao longe sobre um piano moveu-se. O espírito fugiu e a comunicação terminou. Para mim este fato foi decisivo. Parecia perfeitamente claro para mim que a pessoa envolvida era um demônio ou uma alma perdida. O espírito não resistiu à ordem do padre. Pelo que me lembro, tentei desiludir meus parentes. Então, comecei a orar continuamente a Jesus, orei por muitos dias entre gemidos e suspiros, para que as almas não fossem vítimas de tão grande engano.”

Assim como a verdade não se mistura com a falsidade, o catolicismo não se mistura com o “espiristismo”.

O verdadeiro Deus das almas virtuosas e iluminadas e o falso deus das almas soberbas e obscurecidas

A história humana em parte importante é a história da luta do espírito da falsidade contra o Espírito da verdade, do vício contra a virtude. Assim como há os verdadeiros sábios de Deus, instrumentos da Sabedoria vivente, há os falsos sábios do Diabo, “pai da mentira”, que soberbamente transmitem enganos que enganam, perversões que pervertem, numa mistura enganosa de meias-verdades com falsidades importantes, e assim colaboram com o império infernal entre o homens.

Como homens da negação de realidades importantes, estas mentes obscurecidas negam, sem razão, o único Deus, negam que há o eterno Ser Supremo, o Um Absoluto, o Infinito, o Ser Necessário, Aquele que possui todas as perfeições do ser.       

São Boaventura, mente iluminada, menciona a capacidade humana para compreender coisas múltiplas e grandiosas, de modo múltiplo e grandioso. De certo modo, isto vale para Deus, que é afirmado e não negado na verdadeira filosofia e nos sábios ouvintes das verdades ditas pelo ser.

Sem negar o Deus alcançável pela inteligência humana, em Cristo, Deus-homem, Ele é revelado como Santíssima Trindade: há uma só Essência Divina vivente, na qual há Três Pessoas divinas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. A Trindade é a vida íntima de Deus, “dentro de Deus” por assim dizer.

A este respeito, como mística, eis uma experiência descrita por Santa Faustina. “Em determinado momento, a presença de Deus penetrou todo o meu ser. A minha mente foi misteriosamente iluminada no conhecimento da Sua essência; admitiu-me ao conhecimento da Sua vida interior. Vi, em espírito, as Três Pessoas Divinas, e Sua única Natureza. Ele é Um só, Único, mas em Três Pessoas; nenhuma d’Elas sendo menor ou maior; não há diferença, nem na beleza, nem na santidade, porque são um só ser. São Um absolutamente Um. O Seu amor levou-me a esse conhecimento e uniu-me com Ele. Quando eu estava unida com uma das Pessoas Divinas, estava igualmente unida com a Segunda e a Terceira, de tal forma que quando nos unimos com Uma, em virtude disso nos unimos com as outras duas Pessoas, da mesma forma que nos unimos com as outras duas Pessoas, da mesma forma que nos unimos com Uma. Uma só é a Sua vontade, um só Deus, embora Trino em Pessoas. Quando uma das Três pessoas se comunica com a alma, em virtude dessa única vontade está unida com as Três Pessoas e é inundada de felicidade, que procede da Santíssima Trindade. Os Santos se alimentam com esta felicidade. A felicidade que jorra da Santíssima Trindade torna feliz tudo que é criado, faz brotar a vida que vivifica e anima toda espécie da vida que n’Ele tem sua origem. Nesses momentos, a minha alma experimenta tão grandes delícias divinas que me é difícil expressar.”

O Espírito Onipotente é onipresente e inesgotável

Parte importante da sabedoria é a consciência do Um e o Múltiplo, pois a realidade está cheia de sua presença. Por exemplo, há o um e o múltiplo na relação essência e seus exemplares, como é o caso da triangularidade, que é uma e só pode ser uma, e os triângulos, que podem ser múltiplos.

Para haver triângulos é necessário que haja simultaneamente a triangularidade. A triangularidade é onipresente nos triângulos, no sentido de que está presente em cada triângulo existente e abarca todos os triângulos possíveis. Se alguém desenha três triângulos um do lado do outro, o que há ali são três triângulos e não três triangularidades, pois a triangularidade só pode ser uma. Cada triângulo é um exemplar da triangularidade, que não é limitada por nenhum deles: todos participam dela sem aprisiona-la, sem esgotá-la. Isto significa que não há limites de tempo e espaço para a triangularidade, no sentido de que onde houver e quando houver ela está presente simultaneamente, está presente sempre e em toda parte.

Essas são algumas características do que é imaterial e espiritual. Os bens materiais, quanto mais eu uso, mais diminuem, até se esgotarem. Com os bens espirituais é o contrário: quanto mais são “usados”, mais eles crescem: são inesgotáveis. Assim é com o conhecimento, que é imaterial, pois um conhecimento que se transmite para várias consciências não é um conhecimento que diminui e se esgota, e sim um conhecimento que permaneceu na mente daquele que o transmitiu e se multiplicou para as outras mentes que o assimilaram.

E assim é com Deus, que é Espírito Onipotente e a plenitude das perfeições, pois Ele pode conceder bens do seu Ser sem deixar de ser, sem perder nada. Neste sentido, por meio do profeta Joel, o Deus vivo prometeu: “Depois disso, acontecerá que derramarei o meu Espírito sobre todo ser vivo: vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos anciãos terão sonhos, e vossos jovens terão visões. Naqueles dias, derramarei também o meu Espírito sobre os escravos e as escravas. Farei aparecer prodígios no céu e na terra, sangue, fogo e turbilhões de fumo. O sol se converterá em trevas e a lua, em sangue, ao se aproximar o grandioso e temível dia do Senhor…”

Virtude, morte e felicidade eterna

São João Batista diz que “aquele que vem da terra é terreno e fala de coisas terrenas” e que “Aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus, porque ele concede o Espírito sem medidas”. O Cristo mostrado nos Evangelhos é o Mestre que instrui com verdades importantes e é ele mesmo a Verdade Vivente. Parte importante de seu vivo ensinamento é: permaneçam na verdade, permaneçam em mim. As verdades importantes ensinadas pelo Cristo e por sua Santa Igreja valem para todos os momentos da vida, porque a morte pode vir até mim a qualquer momento e tenho um destino eterno, o céu ou o inferno, decidido no tempo de minha vida na terra.

No Salmo 15 Davi diz “sois o meu Senhor, fora de vós não há felicidade para mim… Vós me ensinareis o caminho da vida, há abundância de alegria junto de vós e delícias eternas à vossa direita”. A vida católica é uma vida no tempo com sentido para a eternidade, uma viagem com destino à morada celeste, que é abundância de felicidade, delícias sem fim do ser de Deus. É já estimar aqui o que é eterno, sempre importante, e nunca passará. Nela, para que seja frutuosa, é importante fazer o certo pela razão certa. Duas das supremas razões são sempre a virtude da caridade e a virtude da humildade, que nutre a caridade.

Diz Cristo a Santa Faustina que a verdadeira grandeza está no amor a Deus e na humildade. Diz Deus Pai a Santa Catarina de Sena que “vossos pecados consistem no amor por realidades que abomino; consistem em abominar coisas que eu amo… Amo a virtude, detesto o vício. Quem ama o vício, ofende-me; é um cego a caminhar, sem saber o que é o pecado, o que é o egoísmo, quais a consequências do pecado” e diz que “é nas situações adversas que as virtudes são experimentadas.”

Enquanto criaturas humanas somos um ser composto de corpo e alma espiritual – que não se opõe ao corpo mas tem prioridade sobre ele. Isto quer dizer que possuímos não somente necessidades materiais, mas também e acima delas possuímos necessidades espirituais, que os bens materiais não podem satisfazer. O espiritual, para ser satisfeito, exige o espiritual, que em Cristo é o “pão da vida”, Eucaristia, a Oração e o Espírito Santo, Espírito da Verdade e das virtudes.

Cristo e sua verdadeira Igreja: vencem e permanecem, vencem e permanecem!

Nos Atos dos Apóstolos é dito que Gamaliel, renomado fariseu da época, disse o seguinte a líderes religiosos judaicos convocados para decidir o que fariam com os apóstolos que haviam aprisionado: “Agora, pois, eu vos aconselho: não vos metais com estes homens. Deixai-os! Se o seu projeto ou a sua obra provém de homens, por si mesma se destruirá; mas se provier de Deus, não podereis desfazê-la. Vós vos arriscaríeis a entrar em luta contra o próprio Deus”.

O Antigo Testamento conta uma oposição existente entre os “profetas de Ball” e o profeta Elias, homem santo. Elias disse ao povo de Israel: “Até quando claudicareis dos dois pés? Se o Senhor é Deus, segui-o, mas se é Baal, segui a Baal”. E para mostrar o verdadeiro Deus, ele desafia os falsos profetas: “Invocareis o nome de vosso deus, e eu invocarei o nome do Senhor. Aquele que responder pelo fogo, esse será reconhecido como o verdadeiro Deus”. Resultado: como os ídolos não têm por si mesmos poder nenhum, o Deus de Elias mandou fogo, enquanto o falso deus dos religiosos de Baal não acendeu nem mesmo um fósforo.

Em Elias e nos Apóstolos a presença divina se mostrou pelo auxílio de sua onipotência ao que Lhe pertencia. O único Ser onipotente é Deus: como Ele é a plenitude do Ser, é a plenitude do poder. Esta presença é uma das razões para reconhecer que a Santa Igreja Católica é criação divina e que Cristo é verdadeiramente Deus, pois, como mostra a história, em meio a potentes adversidades, com o passar do tempo eles permanecem e vencem, permanecem e vencem. A Igreja apostólica teve que enfrentar um formigueiro de potentes bestas, como Roma, na época Império pagão, depois os “bárbaros”, depois os maometanos, depois a revolta protestante com suas múltiplas mutilações no Corpo Místico de Cristo, depois movimentos modernos, entre revolução francesa, nazismo e comunismo soviético, e agora um novo e poderoso paganismo, mais um anticristo.

Em síntese: tem enfrentado potentes inimigos de fora e de dentro que desejam sua aniquilação, mas tem permanecido e vencido, permanecido e vencido. Eis a promessa de Cristo, que é promessa do Deus que domina eternamente sobre todas as coisas: “Ele vos ensinará todas as coisas” e “as portas do inferno não prevalecerão”.  

O “Reino Eucarístico”: a verdadeira religião da paz entre as gentes

Jesus Cristo, a Sabedoria, disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”. Isto significa que há um só caminho para Deus: o verdadeiro Cristo, o Cristo total, aquele ensinado pelos apóstolos, o Verbo Divino encarnado, o Cristo da Cruz, a Misericórdia Divina, que permanece presente em seu Corpo Místico, a Santa Igreja, nas verdadeiras Palavras Divinas – palavras de vida eterna, que são espírito e vida – e em seu Corpo Eucarístico. Assim, uma “fraternidade universal de religiões”, proposta com o pretexto da paz entre os homens, na medida em que significa uma negação deste Cristo, é uma falsa religião de aparências enganadoras, e seu verdadeiro nome é contradição, perversão, confusão. Esta “Torre de Babel”, uma legião de vozes com falsidade, é impossível de ser querida por Deus.

Nas palavras do místico católico Padre Dolindo Ruotolo o que haverá não é esta fraternidade mas sim o “Reino Eucarístico de Jesus”. Diz ele: “Como o mundo seria diferente se, em todas as almas, reinasse a graça que reconcilia com Deus e o dom que nos torna uma só coisa com Jesus Cristo!

Quão serena a terra seria – como esperamos com firmeza que um dia será – quando, de um extremo ao outro, Jesus Cristo, fonte de paz e de amor, reinar do alto do trono eucarístico!

Que fisionomia diversa terão as nações que, não mais pacificadas por efêmeros tratados de paz, serão unidas e pacificadas como um só corpo na Comunhão eucarística!

Que caridade arderá entre todos os homens – atualmente cegos pelos egoísmo, pelo orgulho e pela violência – no dia em que se sentirem todos irmanados na mesma mesa eucarística, sem distinção de nação ou de raça; como peregrinos mortais que caminham pela mesma estrada de exílio e bebem como pombas na mesma fonte, para em seguida, um depois do outro, alçarem o vôo em direção ao monte da paz eterna, como águias atraídas pelo desejo das alturas!

Venha o teu reino eucarístico, ó Jesus! Venha e nos torne pasmos de amor, pois o teu amor ao doar-se não tem fronteiras e, ao vivificar-nos, não possui limites! Venha o teu reino eucarístico, pois somente então resplenderá no mundo a luz da glória de Deus e a luz da paz entre os homens; a felicidade de amar sobrenaturalmente e o fulgor das esperanças eternas e imortais!”

Símbolos da dignidade que a Imaculada Mãe do Verbo Encarnado possui

São João Batista, príncipe dos profetas, diz no Evangelho que “aquele que vem da terra é terreno e fala de coisas terrenas” e que “Aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus, porque ele concede o Espírito sem medidas”. Um dos modos de Deus falar com as mentes humanas é são os símbolos. Parte importante da linguagem religiosa católica é composta de simbolismos, presentes nas Sagradas Escrituras, nas orações, nas imagens dos santos, nas igrejas, nos ritos, e assim por diante. Assim, há uma sabedoria dos símbolos e para um católico é positivo ter certa “consciência simbólica”, pois a vida da fé está cheia deles.

O símbolo diz algo do ser simbolizado. Entre os simbolizados da verdadeira religião estão verdades eternas e realidades espirituais. Exemplo: o mesmo São João Batista apareceu certa vez para Santa Brígida, mística católica, e lhe ensinou sobre uma visão que ela teve da Imaculada: “Preste muita atenção ao que tudo isto significa. A coroa significa que ela é a Rainha, Senhora e Mãe do Reino dos Anjos. Seu cabelo solto significa que é uma virgem pura e imaculada. O manto da cor do céu quer dizer que ela está morta a tudo o que é temporal. A túnica dourada significa que ela esteve ardente e inflamada no amor de Deus, tanto internamente como em seu exterior.

Seu Filho colocou sete lírios em sua coroa e, entre eles, sete pedras preciosas. O primeiro lírio é sua humildade; o segundo, o temor; o terceiro, a obediência; o quarto, a paciência; o quinto, a firmeza; o sexto, a mansidão, pois ela amavelmente concede a todos o que lhe pedem; o sétimo é sua misericórdia nas necessidades, pois, em qualquer contrariedade em que se encontre um ser humano, se a invocar com todo seu coração, será resgatado. Entre estes lírios resplandecentes, seu Filho colocou sete pedras preciosas. A primeira é sua extraordinária virtude, pois não existe virtude em nenhum outro espírito nem em nenhum outro corpo que ela não possua com maior excelência. A segunda pedra preciosa é sua perfeita pureza, pois a Rainha dos Céus é tão pura que nem uma só mancha de pecado nunca foi encontrada nela desde o princípio quando veio ao mundo pela primeira vez até o dia de sua morte. Todos os demônios juntos não poderiam encontrar nela nem a mínima impureza que coubesse na cabeça de um alfinete. Ela foi verdadeiramente pura, pois o Rei da Glória não poderia ter estado senão na mais pura e limpa, no vaso mais seleto entre os seres humanos. A terceira pedra preciosa foi sua beleza, para que Deus seja constantemente louvado pela beleza de sua Mãe. Sua beleza enche de gozo os Santos Anjos e todas as almas santas. A quarta pedra preciosa da coroa da Virgem Mãe é sua sabedoria, pois ela foi agraciada com toda a divina sabedoria em Deus e, graças a ela, toda sabedoria se completa e se aperfeiçoa. A quinta pedra é o poder, pois ela é tão poderosa diante de Deus que pode esmagar qualquer coisa que foi feita ou criada. A sexta pedra preciosa é sua radiante claridade, pois ela resplandece tão clara que projeta luz sobre os Anjos, cujos olhos brilham mais claros que a luz e os demônios não se atrevem nem a olhar o brilho de sua claridade. A sétima pedra preciosa é a plenitude de todo deleite e doçura espiritual, porque sua plenitude é tal que não há gozo que nela não seja incrementado, nem deleite que não se faça mais pleno e perfeito por ela e pela bendita visão que alguém possa ter dela, pois está cheia e repleta de graças, mais que todos os santos. Ela é o vaso puro onde descansa o pão dos Anjos e é nele que se encontra toda doçura e beleza. Estas são as sete pedras preciosas que seu Filho colocou entre os sete lírios de sua coroa. Por isso, como esposa de seu Filho, dá-lhe honra e louvores com todo teu coração, pois Ela é verdadeiramente digna de toda honra e louvor!”

Sagrada Escritura: parte da Divina Revelação, verdades nela contidas e o “livre exame” que a perverte

Como nem tudo importa, positiva ou negativamente, do mesmo modo, como há no ser um escala de valores, parte da sabedoria é o senso de importância. Isto vale para a Sagrada Escritura, pois se por um lado é certo que nela, em razão de sua riqueza, há múltiplos significados, portanto múltiplas verdades de conhecimento possível para a mente humana, por outro lado nem todos tem a mesma importância vital para a existência do homem, sobretudo com relação ao alcance da vida eterna prometida pelo Cristo, Sabedoria encarnada.  

A Escritura é parte de uma realidade mais ampla: a Revelação. Hugo de São Vitor diz que no Antigo testamento há uma verdade prometida e no Novo Testamento há a verdade realiza: esta Verdade é Cristo, a Sabedoria encarnada. Assim Ele é simultaneamente o Revelador e a Revelação. Inegavelmente, o Cristo mostrado no Evangelho é o Cristo mestre, que instrui com verdades importantes e é ele mesmo a Verdade Vivente. Parte importante de seu vivo ensinamento é: permaneçam na verdade, permaneçam em mim. Assim, há revelação contida nas Sagradas Escrituras, porém a Escritura não contém toda a verdade da Revelação.

Quanto mais importante algo é, mais importante é a sua perversão. Se nas Escrituras há palavras divinas, inspiradas pelo próprio Espírito da Verdade, então a perversão delas tem grande importância.

Neste sentido o “livre exame” dos protestantes é negativo, pois as contradições e confusões que isto traz, torna as palavras divinas meras palavras humanas, expressões mortas que não ressoam as palavras que são “espírito e vida”. Assim, como os mesmos escritos alguns ensinam coisas contraditórias sobre batismo, sobre Deus, sobre Jesus, sobre Maria, sobre a Santa Ceia, etc., etc., etc., e nisso ou são calvinistas, ou são batistas, ou são pentecostais, ou são espíritas, até chegar ao “cada cabeça uma sentença”. Deus não está contra si mesmo. Pelos frutos conhecereis.

Contra isto a Santa Igreja Católica, sem as perversões que nela o império infernal tenta instaurar, tem a Tradição Apostólica e o Magistério Eclesiástico. É a única que tem a garantia do auxílio do Espírito da Verdade, como mostra seus mais de 2 mil anos de história: “Ele vos ensinará todas as coisas”, “as portas do inferno não prevalecerão”.

A Verdade deseja a verdade e detesta os males que a língua produz

Nossa Senhora do Silêncio – espiritanos.pt

Há trevas e perversidades que cobrem a terra. Entre elas está a falsidade, a mentira, que Deus, Verdade infinita, não pode suportar, com a qual não pode conviver, pois diz São João Apóstolo: “Deus é luz, e não há nele nenhumas trevas. Se dizemos ter comunhão com ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não seguimos a verdade”.

A este respeito, por exemplo, a Imaculada disse à Santa Brígida: “Sou aquela que ouviu a verdade dos lábios de Gabriel e acreditou sem duvidar. É por isso que a Verdade tomou para si carne e sangue do meu corpo e permaneceu em mim. Eu trouxe à luz a essa mesma Verdade, Deus e Homem. Na medida em que a Verdade, que é o Filho de Deus, desejava vir a mim, morar em mim e a nascer de mim, sei muito bem se pessoas têm verdade sobre seus lábios ou não.”

O anjo Gabriel é o anjo da verdade, aquele que diz toda a verdade em nome de Deus. Maria Santíssima é aquela que acolhe integralmente a verdade recebida. Ambos possuem o interesse pela verdade, o interesse em conhecê-la e o interesse de que seja conhecida. A relação do anjo e Maria gira em torno da encarnação da Sabedoria Divina, a Verdade Vivente. Assim, toda a verdade no anjo, toda a verdade em Maria, toda a verdade em Cristo e toda a verdade no Espírito Santo. Este é um entre vários exemplos inegáveis da importância suprema que a verdade tem no verdadeiro cristianismo e é ela mesmo um importante critério, absoluto, para distinguir o verdadeiro cristianismo, a verdadeira religião, no sentido de religião querida por Deus, do falso cristianismo, da falsa religião.

Quanto às maldades que podem sair da boca dos homens, ao falar dobre o valor do silêncio, são Boaventura ensina: “(…) Se do demasiado falar seguem frequentemente ofensas a Deus e ao próximo, o silêncio, por sua vez, nutre a justiça da qual nasce, como de uma árvore, o fruto da paz. (…) Queres ouvir e saber quantos males produz a língua, quando não é guardada solicitamente? Pois ouve: a língua produz a blasfêmia, a murmuração, a defesa do pecado, o perjúrio, a mentira, a detração, a adulação, as pragas, as injúrias, as rixas, a ridicularização dos bens, os maus conselhos, a difamação, a jactância, a revelação dos segredos, as ameaças e promessas arrogantes, o excesso no falar, as zombarias.

(…) Não digas palavras ociosas, porque de qualquer palavra ociosa que disserem os homens, darão conta dela no dia do juízo. «Ociosa é a palavra, diz a Glosa, quando proferida sem necessidade de quem fala, ou sem utilidade para quem ouve».”