“Contra a Sabedoria o mal não prevalece”

Deus é o Supremo Bem, o próprio Bem, e tudo que Ele faz é bom. A verdadeira realidade é bondade, o verdadeiro ser é bem. Com o Divino Cristo, a cruz que dizia maldade e sofrimento destruidor, um lugar de punição para malfeitores, agora passa a dizer bondade e alegria espiritual. O Pai, Onipotente criador, mediante o Filho, a Razão eterna, a Sabedoria que se encarnou, por meio da qual todas as coisas foram criadas, faz com que o sofrimento humano passe a ter um novo significado, um sentido existencial positivo. “Eis que faço novas todas as coisas”.

Isto não é somente o passado da fé mas também o presente contínuo da fé, para todo aquele que crê. Agora posso, com o onipotente auxílio divino, vivenciar virtuosamente, frutuosamente, os sofrimentos que a Divina Providência permite e até envia em minha vida terrena passageira, eu que sou pessoa humana de alma imortal e com um destino eterno definitivo, inalterável.

Como ensinam sábios católicos, o sofrimento positivamente considerado em seu sentido sobrenatural, à luz de Cristo, da vida eterna por Ele prometida, entre outras coisas (1) pode significar para a pessoa que o experimenta uma oportunidade de expiar na terra os seus pecados, os efeitos deles, e assim por exemplo diminuir o tempo dos sofrimentos no purgatório, (2) pode significar provações purificadoras que a desprende de laços que a aprisionam, que removem vícios e enraízam virtudes, e (3) pode significar uma oportunidade de exercer a virtude, a caridade fraterna, o verdadeiro amor, como oferta para realização do verdadeiro bem do próximo, e nisto a pessoa imita o Cristo, em certo grau como seu verdadeiro imitador aproxima-se mais dele.

Diz Salomão que contra a Sabedoria o mal não prevalece. Isto significa dizer que contra o ser o não-ser não prevalece, contra a bondade a maldade não prevalece, pois antes de tudo e sempre o que há é o Ser, e o Ser é presença total, e o Ser é o Eterno Deus, Santíssima Trindade, que tudo contém e por nada e contida.

Santa Eucaristia, o Pão descido do céu: vida divina na Igreja de Cristo

Quinta-feira santa. Início do “Tríduo Pascal”. Memória da instituição, feita pelo Cristo, de dois sacramentos importantíssimos na vida da Igreja: a Santa Eucaristia e o sacerdócio apostólico. Disse o Divino Jesus à Santa Faustina: “Minha filha, medita sobre a vida divina que está contida na Igreja, para a salvação e a santificação da tua alma. Reflete sobre como está aproveitando estes tesouros de graças, estes esforços do Meu amor”.

Neste dia pode-se considerar a presença dos números, o simbolismo dos números. Para um católico é positivo ter certa “consciência simbólica” ou o senso dos símbolos, pois a vida da fé está cheia deles. No símbolo está sempre presente uma relação de semelhança e diferença, e ele é sempre símbolo de alguma coisa, o simbolizado. O símbolo diz, pela semelhança, algo do ser daquilo que é simbolizado. Neste sentido, símbolo é conhecimento. Por exemplo: a relação entre o Sol e a lua simboliza a relação entre Deus, o Altíssimo Criador, e Maria Santíssima, grandiosa criatura. Quer dizer, é uma relação (Sol e Lua) que diz algo da outra relação (Santíssima Trindade e Maria Imaculada), no tema da importância, da grandeza, etc., etc., etc.

Dito algo sobre o símbolo, agora algo sobre os números. Há o Um e o Três em Deus, uma só Essência Divina na qual há Três Pessoas. O Um e o Dois em Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Divindade e humanidade. 40 são os dias da quaresma, assim como 40 foram os anos do povo de Israel no deserto após sair da escravidão no Egito, e 40 foram os dias de Jesus no deserto após ser batizado pelo profeta João Batista. 30 era, conforme a tradição, a idade de Cristo quando começou sua vida pública, sua missão, e 30 era a idade de José do Egito quando começou a servir o faraó, deixando de ser escravo, e 30 era a idade de Davi quando se tornou Rei. Aqui, com em outros casos, não é sem razão que os números se repetem, pois como símbolos, significam mais do que quantidades. O 3 significa totalidade, o 40 significa “o tempo necessário” e 30 significa a “idade da maturidade”.

No caso das celebrações de hoje. 12 eram os apóstolos na Santa Ceia Eucarística, assim como 12 eram as tribos de Israel, tribos que vieram dos 12 filhos de Jacó (ou Israel, seu outro nome), que era filho de Isaac, que era filho de Abraão. Na antiga aliança, que parte de Abraão, o povo de Deus é o povo de Israel, o povo das 12 tribos. Na nova aliança, o novo povo de Deus é o povo que vem dos 12 apóstolos, descendentes do Cristo, tornados filhos de Deus pelo batismo, participantes da Vida Divina. Apóstolos que são sacerdotes, e dos quais vieram todos os demais sacerdotes, e enquanto tais recebem do próprio Deus o poder, por exemplo, de com Cristo participar do perdão dos pecados de um homem e de consagrar o Pão e o Vinho, de tornar ali presente o corpo de Cristo, o próprio Cristo. Como diz Santo Tomás de Aquino: na cruz se escondia sua divindade, e na aparência do pão se esconde a sua humanidade. Eucaristia que significa a oferta de Jesus Cristo a Deus Pai, satisfação da Justiça Divina, e sua oferta aos homens como alimento, que ali podem recebê-lo.  É o sacramento-sacrifício da reconciliação do homem com Deus, dádiva da Divina Misericórdia.  

Quando na oração do “Pai Nosso” pedimos “o Pão nosso de cada dia nos dai hoje”, pão significa pelo menos duas coisas importantes: (1) a Palavra Divina que, como diz Cristo, é espírito e vida e (2) a Santa Eucaristia, que é, nas palavras de Cristo, “o verdadeiro pão vindo do Céu”, em meio ao deserto dessa vida, o pão que todo aquele que come devidamente tem a vida divina e viverá eternamente.

O Pão Eucarístico exige ser recebidos com as devidas disposições interiores, entre elas a fé, para que seja experimentado como alimento espiritual que sacia a fome e mata a sede. Além da fé, é exigido o “estado de graça”, o estado de mínima amizade com Deus, conseguido pela aniquilação dos pecados graves no arrependimento e confissão sacramental com um sacerdote da Santa Igreja de Cristo apto a exercê-la.

Ao longo da história há vários “anticristos”, e o próximo será mais um. Ele só é contra Cristo sempre do mesmo modo quando se trata do Cristo total, que é, para enumerar algumas de suas partes importantes, o Cristo enquanto Verbo Divino encarnado, o Cristo da Cruz e Ressureição, que permanece presente em seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica, nas verdadeiras Palavras Divinas, que “são Espírito e Vida”, em seu Corpo Eucarístico, a Santa Eucaristia, que é o “Pão da Vida”, o “verdadeiro Pão descido do Céu” como dádiva de Deus para suas miseráveis criaturas, exilados filhos de Eva, degradados filhos de Adão.  

Via Crucis: Paixão do Sagrado Coração e paixão do Imaculado Coração

Quarta-feira santa. Na liturgia da palavra, destaque para a “traição de Judas”, que entregou Cristo por 30 moedas de prata. Neste dia é costume fazer memória do encontro de Maria com Jesus na Via Crucis. O encontro de nosso Senhor Jesus Cristo com sua mãe pode ser visto do ponto de vista do coração. Ali há um encontro dos dois corações na dor, do Sagrado Coração de Jesus com o Imaculado Coração de Maria. Nisto, e em outras coisas, os dois corações se assemelham, tanto que, em imagens, são apresentados assim: corações com chamas, que significam o amor – o amor divino é como “uma chama viva de amor”, no dizer de São João da Cruz -, com uma Cruz no coração de Cristo e uma espada no de Maria. A Cruz e a espada significam os sofrimentos por eles experimentados. Os dois são, cada um à sua maneira, corações riquíssimos, cheios de bondade e de amor, que sofrem pelas nossas misérias e como “vítimas dos pecadores”, ainda hoje. Por esta razão, quis a Divina Providência que houvesse na Igreja a devoção das primeiras sextas-feiras, para reparar as ofensas ao Sagrado Coração, e a dos primeiros Sábados, para reparar as ofensas ao Imaculado Coração de Maria. E se Deus quis, significa que estas devoções são caminhos positivos para todos nós.

Se há os dois corações, há também o coração de Judas, um coração que preferiu vender o Cristo, seu mestre, em vez de segui-lo até o fim e nele confiar, isto é, um coração que não encontrou o coração do Salvador ou, se encontrou, por alguma razão acabou se perdendo.

Neste fato, a venda por 30 moedas de prata, se repete sob certo aspecto a história de José do Egito, que foi vendido como escravo por seus irmãos – que eram 11, com ele 12; irmãos que ele, na posição de 2º homem mais poderoso do Egito, depois de ascender socialmente, de escravo a soberano (“José tinha trinta ano 30 de idade quando começou a servir ao faraó”), perdoou e ajudou numa época de fome e penúria. Assim é com Jesus Cristo, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem: disposto a perdoar qualquer um que a ele se dirige com arrependimento – seja Pedro, seja Judas; que oferece o alimento àqueles que têm fome e precisam se alimentar, sobretudo com o alimento que é a “Santa Eucaristia”, o Pão da Vida, o Pão que “contém todo o sabor”; e que depois de ser vendido como escravo por um de seus 12 irmãos, apóstolos, é glorificado na Ressureição, na Ascensão aos Céus e se torna Cristo Rei do universo, Juiz de todas as nações, que virá “para julgar vivos e mortos”, o nome “acima do qual não há outro nome”.  

Nisto tudo está presente a Providência Divina, que significa dizer a Onipotência Divina, a Sabedoria Divina e o Divino Amor.

Sagrado Coração de Jesus, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e ciência e que é cheio de bondade e amor, tende piedade de nós!

Ó clemente, ó piedosa, ó doce e sempre Virgem Maria. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo!

Maria, Senhora das Dores ontem e hoje

Parte da terça-feira santa é a memória de Nossa Senhora das Dores. A Semana Santa tem como eixo o Cristo Senhor, no mistério da sua Paixão, Morte e Ressureição, algo que dá sentido a fé católica, que tem no Credo uma síntese daquilo que lhe é de máxima importância. Porém, nesta semana há momentos para lembrar-se da Santíssima Virgem, Maria, a Mãe do Salvador. Catolicamente, ensinados pela Igreja que é Mestra da verdade, pode-se dizer que esta lembrança não ofusca de modo algum a importância de Jesus, do Deus Uno e Trino, pois Maria, assim como a lua em sua relação com o Sol, é luminosa pela luz que recebe de Deus, é grande pela participação na grandeza infinita do Divino Criador. Quer dizer, a Semana Santa nos faz considerar não somente quem é Cristo, o seu Ser, mas também quem é Maria. De Cristo aprendemos que é a Sabedoria eterna e encarnada, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, o revelador e a revelação, a Palavra de Deus, a Luz do mundo, o Único Necessário, o Caminho, a Verdade e a Vida, o Pão Vido descido do céu, que todo aquele que deste Pão da Vida se alimenta tem a vida eterna, viverá eternamente.

De Maria podem ser ditas inúmeras coisas. Por exemplo, com o santo Anjo Gabriel dizer que é “cheia de graça”, cheia da Vida Divina, da Santíssima Trindade; com Isabel, inspirada pelo Espírito da Verdade, que é “bendita entre as mulheres” e a “mãe do Senhor”, o Salvador; dizer, como dizem os sábios, que é Filha amadíssima do Pai, Mãe admirável do Filho e Esposa fidelíssima do Espírito Santo; dizer também que é a “nova Eva”, que pelo seu sim colaborou para a elevação do homem, na nova comunhão com Deus, superabundância de felicidade, em oposição ao não de Eva, que de certo modo é o não de Judas Iscariotes e o não de todo homem quando peca, negação que significou para a criatura humana a queda, a perda da harmonia e do paraíso de delícias de sua humanidade em comunhão com o Ser Divino.

Enquanto Mãe dolorosa, Senhora das Dores, em sua vida se cumpriu o que no templo Simeão disse a ela, que uma espada de dor transpassaria o seu coração. Uma espada que são 7 espadas, 7 dores, e que pelo menos nos últimos tempos passou a ser 8, com uma oitava dor, que é a dor pelo modo negativo como seu Filho é tratado no Santíssimo Sacramento, na Santa Eucaristia. E um dos aspectos das dores Maria é, como diz Santo Afonso Maria de Ligorio, que “se nesse mar de mágoas, que era o coração de Maria, entrou algum alívio, então este único consolo foi certamente o animador pensamento de que, por suas dores, cooperava para nossa eterna salvação”.

De certo modo, Maria é mãe dolorosa ainda hoje, pois continua a sofrer pelas ofensas diárias ao Santíssimo Coração de seu amado Filho, Coração Eucarístico, e ao seu Imaculado Coração, que em breve triunfará, e pela multidão de seus filhos que sofrem e se perdem na vida, sobretudo eternamente.

Para consolar esta mãe dolorosa, consoladora dos aflitos, e para o nosso próprio bem, ela mesmo diz o que pode ser feito: rezar o Santo Terço diariamente, exercer as virtudes, exercer a devoção dos primeiros sábados, consagrar-se a ela, oferecer penitência pela salvação das almas, entre outras coisas.

Nossa Senhora das Dores, consoladora dos Aflitos e refúgio dos pecadores, rogai por nós!

Nosso Senhor dos Passos: Cristo e o sofrimento frutuoso

Segunda-feira santa: Nosso Senhor dos Passos. Cristo, o Verbo Encarnado, é a plenitude da verdadeira religião, da relação do homem com Deus, no caso uma relação de comunhão amorosa, de união com a Essência Divina Vivente, de participação na vida íntima da Santíssima Trindade, como o esposo com a esposa, transbordante de delícias divinas, experimentando o divino perfume, êxtase para o coração, inebriante para a alma. 

Na segunda-feira santa, nas vésperas do sofrimento redentor e do alegre ressurgimento, Cristo nos é apresentado como “Senhor dos Passos”, aquele que livremente e pacientemente carrega a pesada Cruz pelo tempo necessário. Senhor é aquele que tem domínio-poder sobre algo. Passos significa paixão, sofrimento. Assim, Jesus Cristo é aquele que domina o sofrimento, que o vivencia virtuosamente, em união com o Pai, o Onipotente, e o Espírito Santo, o Divino Amor, com a consciência do seu verdadeiro significado, Ele que é a Sabedoria encarnada, “rosto divino do homem e rosto humano de Deus”.

A consciência de Cristo quanto ao sofrimento diz que (1) “tudo que vem de Deus só pode ser fruto do seu amor onipotente”, e por isto eu, uma criatura nascida de sua Divina Misericórdia, posso confiar Nele, se pecador abandonando o pecado e voltando à vida verdadeira, e se justo mantendo-me fiel; que (2) “após a dor vem a alegria”, e que o sofrimento, embora possa se opor ao meu prazer corporal, não se opõe à minha alegria, a alegria espiritual que nos é oferecida na vida em Cristo, mesmo em meio à paixão; e que os (3) sofrimentos passageiros dessa vida é pouco comparados ao grande sofrimento do inferno, que significa perder para sempre, por escolha própria, por exercer a maldade, o Supremo Bem, que é Deus mesmo, e é pouco comparados ao grande bem da Vida Eterna, da alegria sem fim na presença de Deus.

Como exercício da virtude, como em Jó, Sara, Tobias e José do Egito, a Sabedoria Divina vivente ensina aceitar, enfrentar e superar virtuosamente, frutuosamente, os sofrimentos que a Divina Providência permite e envia para o meu próprio bem.

A Verdadeira Igreja da Sabedoria Encarnada, da Divina Misericódia

Tão importante quanto conhecer a verdade é permanecer na verdade conhecida, manter-se fiel a ela. O sábio em parte é aquele que sabe o que passa e sabe o que permanece e, por esta razão, mantém suas convicções, sua verdadeira consciência. Um dos significados disto em linguagem filosófica é: sabe o que é contingente e sabe o que é necessário – sempre o mesmo, eterno neste sentido. O quadrado, enquanto essência-logos, é sempre o mesmo, sempre uma figura geométrica com quatro lados iguais e quatro ângulos de 90º. Isto é essencialmente necessário no ser do quadrado, algo sem o qual ele não seria o que é, mas seria outra coisa, se alguma coisa fosse.

Se é assim, então não é verdade que tudo muda: há a realidade das coisas imutáveis, a primeira delas a própria Essência Divina Vivente. A este respeito diz o filósofo Leibniz: “O conhecimento das coisas eternas e necessárias nos distingue dos simples animais e nos põe na posse da razão e das ciências, elevando-nos ao conhecimento de nós mesmos e de Deus”. Assim, parte importante da sabedoria humanamente alcançável é o senso de eternidade. Isto com relação ao homem, pois em si mesma a sabedoria é a eternidade, dois nomes para Deus. Sobre isto diz São Boaventura que todos os atributos de Deus “podem reduzir-se a três, a saber: a eternidade, a sabedoria e a felicidade; e estas três a uma: a sabedoria, na qual se incluem a Mente que gera, o Verbo gerado e o amor que une a ambos, e nos quais a fé ensina que consiste a Santíssima Trindade”.

Pelo menos algumas mudanças que em nome do progresso os “progressistas” querem para a Igreja Católica é falso progresso, pois significa na realidade degradação, perversão, desfiguração. Isto se torna evidente, inegável, quando consideramos, dentre outras coisas, as seguintes razões.

Primeiro, sobre o progresso em si mesmo. Como mostra a experiência, a semente de macieira e o embrião humano progridem. O progresso da primeira é uma árvore cheia de maçãs saborosas e o progresso do segundo é, em parte, uma pessoa madura cheia de inteligência. Isto significa que todo progresso, que é Um enquanto essência e Múltiplo em seus vários casos, é sempre o progresso de algo, significa sempre a atualização, tornar atualmente existente, possibilidades positivas de um ser, significa sempre a passagem do menos para o mais – que nele sempre esteve contido totalmente, no caso na macieira ou no embrião. Assim, sem o ser e a essência não há em hipótese alguma progresso. Progresso exige conservação, permanência. Progredir é crescer, é o crescimento na essência, crescimento naquilo que se é. Para Deus, por exemplo, não há progresso, crescimento, evolução, pois Ele já é em ato, em existência, tudo quanto é essencialmente.

Segundo, a mudança não é necessariamente algo positivo. A queda de Lúcifer, Adão e Eva foi uma mudança, no caso uma perda, uma degradação. Então, nem toda mudança é progresso, embora todo progresso signifique mudança, passagem no ser. Se é assim, nem toda mudança na Igreja do Divino Jesus, simplesmente por ser mudança, por exemplo uma alteração do que é “tradicional”, é necessariamente positiva. Na Igreja é tradicionalmente positivo o Credo Católico, os dogmas, as verdades nele contidos, que é parte importante de sua essência tal como fundada pelo próprio Cristo Senhor – que a este respeito disse a seus apóstolos “ide e ensinai”. Se ele pertence à essência, então é imutável, pois mudar a essência de algo é torná-lo outra coisa. A triangularidade é sempre a mesma – sempre três ângulos – e a quadrangularidade é sempre a mesma, sempre quatro ângulos. Se eu mudo um triângulo ou um quadrado removendo um de seus ângulos, já não é mais triângulo nem quadrado. Por esta e por outras, um dos efeitos de certas mudanças é o cisma, a separação.

O amor de Deus pelos homens, mostrado por Cristo, o Verbo Encarnado, significa em essência que Deus concede ao homem o máximo que Ele poderia doar a esta sua criatura: a própria Divindade. É como se Deus dissesse: “Eu sou Divino, o único e verdadeiro Deus, e vou torná-los divinos, participantes do meu Ser, da minha Essência Divina Vivente, da minha vida íntima trinitária, da minha riqueza inesgotável, da minha felicidade sem fim. Nisso não deixo de ser Deus, o que é impossível, e vocês deixam de ser apenas homens. Eu não ganho nada e vocês ganham tudo. Assim sou Eu, o Deus que é puro amor, infinita misericórdia, bondade sem fim. E o caminho para isto na vida terrena é o meu Filho e seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica.”

Relatos de Santa Faustina a este respeito, presentes em seu Diário. Disse Jesus a ela: “Minha filha, medita sobre a vida divina que está contida na Igreja, para a salvação e a santificação da tua alma. Reflete sobre como está aproveitando estes tesouros de graças, estes esforços do Meu amor”. Em outra vez disse: “Diz, Minha filha, que sou puro Amor e a própria Misericórdia… Tudo que existe está contido nas entranhas da Minha misericórdia, de uma forma mais profunda que a criança no ventre de sua mãe. Quanto dor Me causa a falta de confiança em Minha bondade. Os pecados que Me ferem mais dolorosamente são os de desconfiança”.

A verdade é inegável e vital

Sócrates recebe o cálice com cicuta após condenação à morte

A mente humana pode estar obscurecida ao ponto em que não vê verdades inegáveis e falsidades inegáveis, verdades e falsidades importantes cuja negação, sempre sem razão, é decisiva em maior ou menor grau para a vida pessoal.

Duas destas verdades evidentes são a presença da consciência humana e a própria verdade que ela pode conhecer enquanto uma – a verdade como essência – e enquanto múltipla, nos seus múltiplos exemplares, como as verdades sobre Deus, as verdades sobre os triângulos, as verdades sobre fatos históricos, e assim por diante.  

Temos de reconhecer que são inegáveis pois a negação significa na realidade uma confirmação. Quanto à primeira, só pode negar a consciência quem possui consciência; a negação da consciência, o dizer “não existe”, exige a própria consciência, que assim é confirmada. Quanto à segunda, quem nega a verdade, nega como se sua negação fosse verdade, comporta-se como alguém que diz uma suposta verdade sobre a verdade, e nisto, em vez de mostrar o que afirma, mostra o contrário.

Além disso, sem a consciência e a verdade a criatura humana não poderia fazer coisas elementares para sua sobrevivência, como saber o que é comestível e o que não é. A experiência mostra que há coisas que podemos ingerir e outras não. Se nego esta verdade mostrada pela experiência, então nego esta distinção biologicamente importante. Porém, como neste caso tal negação é algo que só existe na mente daquele que nega e como ele não é Deus, então a realidade permanece como é. E assim podemos dizer que a pessoa que ingere qualquer coisa, como um prato de pregos com uma taça de óleo diesel, para não dizer que é seu destino certo, tem a morte como tendência.

Este pequeno exemplo mostra a importância vital que a verdade possui para a sobrevivência biológica do homem, junto com a importância espiritual.  É algo elementar para a vida humana como um todo e para a sociedade. Os conscientes inimigos da verdade são inimigos de Deus, inimigos do homem e inimigos de si mesmos.

Profetas de Deus e “profetas” da serpente

Na vida humana como um todo, o que inclui a vida religiosa, é importante possuir na medida do possível a consciência do que é verdadeiro e do que é falso. Cristo, por exemplo, ensina ter cuidado com os falsos profetas, o que supõe haver verdadeiros profetas.

Verdadeiro profeta é, para mencionar um caso, São João Batista, e enquanto tal pode ser considerado como um modelo para reconhecer um falso profeta, por oposição. Se é assim, certas oposições a São João Batista significam a impossibilidade de ser verdadeiro profeta. O precursor é aquele que endireita, que prepara o caminho do Senhor, enquanto o falso faz o contrário. “Pelos frutos conhecereis”.

Um falso profeta é alguém que está revestido de uma roupagem de valores sagrados, que nele são como vestes que encobrem sua verdadeira face, a maldade que há em sua nudez. É aquele que supostamente fala em nome da Divindade, do bem, dos valores divinos, mas que diz falsidades que não poderiam vir do Deus Uno e Trino. Assim, um critério importante para reconhecer um falso profeta são as verdades importantes que nega e as falsidades importantes que afirma.

Quanto mais importante algo é, mais grave é a sua perversão, sua falsificação. Por exemplo, se nas Sagradas Escrituras há palavras divinas, ditas pelo próprio Deus, então a perversão delas é de grande importância. Neste sentido pode-se dizer como o profeta Isaias: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce!”

Disse Deus ao profeta Jeremias: “São mentiras que proferiram os profetas em meu nome. Não os enviei, não lhes dei ordem, e nem mesmo lhes falei. Visões de mentiras, adivinhações vãs, invenções de suas mentes, eis o que profetizam!”… “Acerca dos profetas que em meu nome proferem oráculos, quando missão alguma lhes confiei, e que proclamam não haver espadas, nem fome nesta terra, serão eles que hão de perecer pela espada e pela fome.”

Por esta e por outras, com prudência e sem malícia, importa considerar certas “figuras religiosas”, certos “líderes religiosos” como possíveis falsos profetas, falsos sábios.

O Ser de Deus, a Essência Divina Vivente, a Santíssima Trindade, exclui qualquer possibilidade de maldade. O verdadeiro Deus, por essência, é a plenitude do Ser, da bondade, do amor. Bondade e verdade estão essencialmente vinculadas, de tal modo que são como as duas faces da mesma moeda. A verdade é bondade e a bondade é verdade; e o mesmo se pode dizer da maldade com a falsidade.

Nas Sagradas Escrituras, o Divino Cristo fala de uma “geração má e perversa” e São Paulo fala de “uma sociedade maliciosa”. São maliciosas em parte pelas falsidades que culposamente abraçam. São perversas porque pervertem, adulteram, coisas criadas por Deus, desviam coisas importantes do seu verdadeiro ser-valor, porque ouvem demônios e inventam ídolos. Como Adão e Eva, de novo e de novo comem do fruto da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, e de novo vão pelo caminho da perdição, no caminho em que ficam deixados a si mesmos, sem Deus. Fazem como adverte o profeta Isaias: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce!”

No meio dessas gerações, a Misericórdia Divina envia seus profetas. Assim como há a oposição entre a verdade e a falsidade, há a oposição entre o profeta e a geração má e perversa de seu tempo. São João Batista é o príncipe dos profetas, simboliza a todos. Foi degolado: sem a cabeça não há mais a consciência nem a boca que diz. Simbólico, pois o profeta é de certo modo a consciência divina entre os homens, aquele que em nome de Deus diz toda a verdade e assim move as trevas. Uma parte da geração perversa ouve e se converte, se volta para a verdade, para a bondade, e a outra permanece na ilusão, chamam de mau o profeta e o degolam. Matam o profeta, dizem não a Deus, mas no fundo quem realmente sai perdendo são eles mesmos. Sem conversão, o destino que os aguarda é o destino de seu mestre, a Serpente – que no inferno, no inferior, deixado a si mesmo, na sua miséria, vive de maldade, se alimenta de perversidade, sem nunca se saciar, eternamente infeliz.

Sabedoria Divina, verdadeira teologia e falsa teologia

Os conteúdos da divina revelação presentes, por exemplo, nas Sagradas Escrituras, na medida em que são realmente verdades reveladas, significam uma ampliação da consciência humana com relação à totalidade do ser, à realidade em toda a sua extensão. Com eles de certo modo passamos a ter uma consciência que antes não tínhamos, a consciência de realidades até então pelo homem desconhecidas ou muito pouco conhecidas; realidades que fazem parte do ser, e não são puras ilusões socialmente admitidas.

Assim como a sociologia, ciência a respeito da sociedade, está contida na própria sociedade, a teologia está contida nas realidades, nos modos de ser a respeito dos quais é uma ciência. Ambas, com relação aos homens, estão como que em potência, como que aguardando para ser desveladas e ditas. Neste sentido, o que digo sobre a sociedade em uma e sobre Deus na outra só vale se corresponde ao que está contido na sociedade e em Deus, caso contrário são ficções, invencionices.

Se há verdadeira teologia, parte da sabedoria, há também falsa teologia, tolices teológicas, ficções teológicas, que só existem na mente de teólogos de mente obscurecida e na mente daqueles que os acompanham, um caso de “cegos que guiam cegos”. A este respeito, um critério importante ensinado pelo próprio Cristo, o Logos Divino Encarnado, a Sabedoria Eterna encarnada, é: “Pelos frutos conhecereis”. Quer dizer, uma suposta teologia que significa uma perversão, uma negação de realidades da fé, não pode ser verdadeira teologia, e neste caso não tem valor do ponto de vista do que realmente importa ou é mais importante, que é a compreensão da fé, a ampliação da consciência, a salvação eterna, a santificação. Consequentemente, toda “teologia” que perverte conteúdos da fé, que muda a essência da verdadeira religião, é falsa, e deve ser rejeitada e combatida como tal.

Um modo de tal perversão é a aceitação de modismos intelectuais de conteúdo falso ou apenas hipotético, disfarçados de vestes científicas. Assim, contaminados por “cientificismos”, “sociologismos”, “psicologismos”, “historicismos”, dentre outros, trocam alguma verdade de sempre da Santa Igreja Católica por enganos. Exemplos não faltam. Um é a suposta distinção entre o “Jesus histórico” e o “Cristo da fé”, na qual está contida a negação da Ressureição de Cristo. Falsa teologia, falsa cristologia, consequentemente um falso Cristo. Perversão que perverte, engano que engana.

São Paulo, mestre contra a falsa sabedoria, em oposição a falsos doutores que negavam a Ressureição, diz que se Cristo não ressuscitou vã é a fé cristã. Quer dizer, a Ressureição enquanto fato é tão importante que negá-la significa necessariamente negar outras partes importantes do verdadeiro cristianismo, que assim perde totalmente o sentido. Para mencionar dois exemplos, ela torna sem sentido o carregar a Cruz com esperança da eterna felicidade e faz do Cristo ou um louco ou um mentiroso que teve o mesmo destino dos outros homens, vencido pela morte. Aqui a negação de São Paulo tem como razão as consequências, e pelas consequências pode-se dizer que tem razão.