“A importância é tão fundamental quanto o ser”

Em Provérbios (4,20-22) é dito: “Meu filho, ouve as minhas palavras, inclina teu ouvido aos meus discursos. Que eles não se afastem dos teus olhos, conserva-os no íntimo do teu coração, pois são vida para aqueles que os encontram, saúde para todo corpo.”

O provérbio ensina a devida atenção para aprender e a devida memória para guardar verdades importantes, como um tesouro para o coração, no caso palavras divinas para uma vida bem vivida, fonte de muitas bondades, próxima do bem e longe do mal.

Não prestar atenção ou não dar ouvidos significa não dar importância. Se o homem deve fazer o bem e evitar o mal, não vai por este caminho quando não reconhece devidamente o que realmente importa, como é o caso das palavras ditas por Deus, que são sempre verdadeiras em si mesmas e benéficas para o homem, com fonte em sua puríssima Bondade.

Sobre a importância, o filósofo Dietrich von Hildebrand diz: “Não poderíamos sustentar por um momento sequer a ficção de um mundo absolutamente neutro e indiferente. A importância é tão fundamental quanto o ser. (…) Se tentarmos imaginar um mundo que seja completamente neutro – uma ficção essencialmente impossível – percebemos que tudo perderia toda a relevância. (…) Seria impossível até mesmo dizer que a sabedoria é preferível à tolice. ”

As palavras de Deus são sempre objetivamente importantes, possuem sempre valor objetivo, e são sempre bem objetivo para a pessoa. E tudo isto sempre independente das considerações dos homens.  

Conselhos de São Maximiliano Kolbe

Conselhos de São Maximiliano Kolbe

– “Faze o que estás fazendo e não te preocupes com nenhuma outra coisa (pensamentos bons ou ruins): se te dás conta que te distraístes, volta com serenidade ao que estavas fazendo. Confia o resto aos prodígios de misericórdia da Providência Divina: a Imaculada”.

– “Faze bem cada coisa por amor, para a glória de Deus”.

– “Cumpre bem teus deveres; tudo com reta intenção de agradar unicamente a Deus”.

– “O critério infalível do amor a Deus é cumprir a Vontade de Deus e abandonar-se a ela”.

– “Deixa de lado o que não é útil e terás tempo para tudo”.

“Quem quer que sejas, qualquer coisa que possua ou possas fazer, tudo o recebes a cada instante das mãos da misericórdia de Deus”

Certamente, o verdadeiro Deus é providente e tudo está submetido à sua Providencia onipotente. Enquanto tal, Deus sempre age por um fim, e em tudo o motivo de sua vontade é sua Bondade. Simultânea à sua providência é sua Sabedoria, de modo que em tudo o que Ela faz há razão e importância.

Como está na Sagrada Escritura, através de Josué Deus disse ao então povo eleito certas coisas relevantes que lhes havia feito, como bens objetivos de sua divina generosidade, desde o tempo de seus primeiros pais. A este respeito, por exemplo, está escrito: “Eu vos dei uma terra que não lavrastes, cidades que não edificastes, e nelas habitais, vinhas e olivais que não plantastes, e comeis de seus frutos” (Js 24,13)

Deus encheu o povo hebreu de benefícios e dele esperava, como bondade devida, o reconhecimento de sua Majestade e Benevolência, ante a qual é virtude a gratidão, como nas palavras do Salmo 135: “Demos graças ao Senhor, porque ele é bom: Porque eterno é seu amor!”. A este respeito, como um ensinamento da verdadeira religião, São Maximiliano Kolbe diz: “Quem quer que sejas, qualquer coisa que possua ou possas fazer, tudo o recebes a cada instante das mãos da misericórdia de Deus. Gratidão”.

“Ela destrói as heresias, não os hereges, já que os ama, deseja a conversão deles”

Cristo disse a Pilatos: “Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz”. (Jo 18,37)

Na oração a Nossa Senhora Auxiliadora é dito: “Tu sozinha destruístes todas as heresias no mundo inteiro”.  Sobre esta afirmação, são Maximiliano Kolbe diz: “Ela destrói ‘as heresias’, não os hereges, já que os ama, deseja a conversão deles; e precisamente pelo amor que nutre por eles livra-os das heresias, destros neles as opiniões e convicções erradas”.

Em seu comentário sobre o oitavo mandamento, Santo Tomás de Aquino diz: “É um pecado mortal, por exemplo, mentir em assuntos de fé. Isso diz respeito aos professores, prelados e pregadores, e é o mais grave de todos os outros tipos de mentira: “Haverá entre vós professores mentirosos, que introduzirão seitas de perdição” (2Pd 2,1)”.  

No livro do profeta Isaías é dito: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce! Ai daqueles que são sábios aos próprios olhos, e prudentes em seu próprio juízo!” (5,20-21)

Em sua carta aos Gálatas, São Paulo Apóstolo diz: “De fato, não há dois (evangelhos): há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém – nós ou um anjo baixado do céu – vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado!” (1,8-9).

No livro dos Provérbios é dito: “Vindo o orgulho, vira a ignomínia, mas a sabedoria mora com os humildes (…). Por falta de direção cai um povo, onde há muitos conselheiros, ali haverá salvação”.  (11,2;14)

“Aferra-te a instrução, não a soltes, guarda-a porque ela é tua vida”

Em Provérbios é dito: “Aferra-te a instrução, não a soltes, guarda-a porque ela é tua vida” (4,13).

A instrução, enquanto instrui na verdade, é algo valioso. E se quanto mais importante a realidade mais importante a verdade, então quanto mais importante a verdade mais importante a instrução. Na vida humana, a realidade das coisas divinas, a realidade do bem e do mal e a realidade da vida boa e feliz, possui grande importância, e desse modo grande valor possui a instrução sobre elas. Assim, é dito que a instrução “é tua vida”. Como exemplo, a este respeito é dito em Oséias: “Porque meu povo se perde por falta de conhecimento; por terdes rejeitado a instrução, te excluirei de meu sacerdócio” (4,6). Pelo que vale, a instrução deve ser entendida pela inteligência, conservada na memória e vivida pela vontade.

Pelas realidades e bens que envolvem, a instrução religiosa na verdadeira religião possui importância vital para o homem e, abaixo dela, a instrução filosófica na verdadeira filosofia tem grande valor. A este respeito, por exemplo, Santa Edith Stein diz sobre Santo Tomás de Aquino: “Uma ‘filosofia cristã’ considerará como sua mais nobre tarefa preparar o caminho da fé. Por essa razão, santo Tomás colocava tanto empenho em construir uma filosofia pura fundada na razão natural: porque somente dessa maneira se dá um trajeto do caminho comum com os incrédulos; se eles aceitam caminhar conosco esse trajeto do caminho, talvez se deixassem guiar mais longe do que teriam pensado no começo”.

São instruções que trazem sentido e compreensão para espíritos com potência de conhecer. Para estes, naturalmente a instrução é adquirida no tempo e, no que depende de sua vontade, deve permanecer no tempo.  

Eis porque a fé se chama “luz escura”

Santa Edith Stein diz: “Aceitando a fé segundo o testemunho de Deus, adquirimos conhecimento sem compreendê-los; não podemos aceitar as verdades da fé como evidentes, como verdades necessárias da razão ou como fatos da percepção dos sentidos: não podemos, tampouco, deduzi-las de verdades imediatamente evidentes segundos as leis da lógica. Eis porque a fé se chama “luz escura”.”

Na verdadeira religião, os conteúdos da fé são realidades reveladas por Deus ao homem. Com relação a elas, o Deus Onisciente é aquele que sabe e o homem é aquele que não sabe, e por isso Deus é aquele que ensina e o homem é aquele que aprende.

As realidades reveladas excedem a capacidade natural da razão humana, que possui poder limitado. A verdadeira fé é conhecimento e o que nela se aprende é verdade. A Santíssima Trindade em Deus, a realidade de haver três Pessoas divinas na única natureza divina, e a transubstanciação na Sagrada Eucaristia, o pão e o vinho que se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo, dois mistérios da fé, são exemplos da fé como “luz escura”.  Assim, Santa Edith diz: “Aceitando a fé segundo o testemunho de Deus, adquirimos conhecimento sem compreendê-los”. Compreendê-los é o mesmo que vê-los cristalinamente, e isto será dado no Céu, de modo que: “Existe a plena verdade (…). Não só o que sabemos agora, mas também o que cremos agora, conheceremos de outra maneira quando chegarmos à pátria celestial”.

Mesmo as verdades evidentes, enquanto verdades necessárias da razão, como o princípio de que nada pode causar a si mesmo, ou enquanto percepções dos sentidos, como as palavras aqui vistas, mesmo elas “conheceremos de outra maneira quando chegarmos à pátria celestial”, porque serão vistas com luz divina, com participação no ser divino, o melhor dos bens para o homem.

São Tiago Apóstolo diz: “Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade” (1,17). E Cristo diz: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).

“Eis o principio da sabedoria: adquire a sabedoria”

Em Provérbios é dito: “Eis o principio da sabedoria: adquire a sabedoria. Adquire a inteligência em troca de tudo o que possuis” (4,7). Em outra parte é dito: “Adquire a verdade e não a vendas. Adquire sabedoria, instrução, inteligência” (23,23).

A sabedoria necessariamente é um bem superior, sem mistura com o mal. Por isso, quanto mais sabedoria melhor. A sabedoria é um valor absoluto, no sentido de que é importante em si mesma, e é para o homem um bem objetivo de primeira grandeza, uma perfeição pura que é absolutamente melhor possuir do que não possuir, de modo que o homem deve viver, nos atos que constituem sua vida no tempo, para adquirir a sabedoria.

A sabedoria ensina o dever de trabalhar para adquiri-la, o deve de obter inteligência custe o que custar, porque isto vale a pena, pelos frutos da sabedoria recebida, pelos bens que sua posse contém.

Cristo, Sabedoria Divina encarnada, disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Da coroação de espinhos e da crucificação do Divino Jesus

O terceiro mistério do santo terço mariano é a coroação de espinhos do Divino Jesus.

Objetivamente, Jesus é Rei, possui dignidade real. Deram-lhe uma coroa de espinhos com intenção humilhante, como negação de sua realeza e desprezo por sua vida. Da parte dos algozes, esse é um dos significados da coroa dada. Da parte de Cristo, a coroa recebida significa, entre outras coisas, a bondade de seu amor misericordioso, porque mostra até que ponto o Rei dos reis se rebaixou, ao máximo que podia, com imensa humilhação, para elevar o homem até onde poderia ser elevado, na máxima divinização, pela participação sobrenatural na natureza divina. Considerar o Cristo em sua Paixão e Ressureição é ver, como realidade objetiva, nas coisas como elas realmente são, o quanto Deus ama a criatura humana.

O quinto mistério do terço é a cruficação de Jesus puríssimo.

Na circunstância romana, a cruz valia por sua utilidade como instrumento para um fim, e foi dada a Cristo como instrumento para o sofrimento de punição, sem que Ele, o Homem-Deus, merecesse qualquer castigo. Ele assim a experimentou, porém fez dela um instrumento para outro fim, como fonte de bondades, sobretudo a salvação eterna das almas de boa vontade. Aqui está a Sabedoria divina criadora, que faz a “cruz maldita”, porque dos sofrimentos dos malfeitores, tornar-se a Cruz bendita, porque da salvação conseguida pelo supremo benfeitor. Em tudo isto se vê a verdade de que Deus, em sua Sabedoria onipotente, sabe tirar o bem do mal, e essa é uma das razões de Ele permiti-lo entre os homens, até mesmo entre os justos, que com o Cristo sofrem um sofrimento valioso.

“Moisés voltou do cume da montanha, trazendo nas mãos as duas tábuas da aliança”

Na Escritura divina é dito: “Naqueles dias, Moisés voltou do cume da montanha, trazendo nas mãos as duas tábuas da aliança, que estavam escritas de ambos os lados. Elas eram obra de Deus e a escritura nelas gravada era a escritura mesma de Deus”. (Êxodo 32,15-16)

A montanha é uma elevação em relação às demais porções de terra e o cume é seu ponto mais alto, o mais próximo do céu atmosférico. Deus é Logos, é Sentido, é Mestre, que fala por meio de palavras e acontecimento, de modo que em todos eles há razão e significado. Isto vale para a montanha, que, pelos exemplos da Sagrada Escritura, pode ser entendida como lugar de encontro com Deus e de revelação divina, ou seja, um lugar de dádivas especiais para pessoas agraciadas. Este é o caso de Moisés, o profeta, que no monte Horeb conversou com Deus, como dois amigos, e recebeu as tábuas da Lei, como benefício para o povo da aliança.

Deus é providente e não faz nada em vão. Para o povo eleito Ele providenciou um líder poderoso e virtuoso, providenciou uma libertação prodigiosa contra um rei hostil, providenciou uma terra cheia de bens para uma vida duradoura e agradável, providenciou um tempo no deserto para purificação aperfeiçoadora e provação meritória, e providenciou as leis da Sabedoria divina para discernimento do bem e do mal e para fazer o bem e evitar o mal, caminho de uma vida frutuosa e abençoada e caminho como do bem comum.    

“Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas…”

São Paulo Apóstolo diz: “Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo” (2 Col 2,8).

Certamente, a Revelação divina presente na verdadeira religião implica certas verdades naturais fundamentais, alcançáveis naturalmente pela razão humana, entre as quais estão a existência da verdade objetiva e a liberdade da vontade humana.

A verdadeira fé não exige consciência filosófica dessas verdades por parte dos fiéis, mas ela as aceita como fundamentais, como partes da verdadeira realidade, que pertence ao verdadeiro Deus. Ao mesmo tempo em que aceita tais verdades básicas, a verdadeira fé exclui os erros que a elas se opõem, portanto exclui falsas filosofias ou erros filosóficos, como o materialismo e o relativismo.

O pluralismo filosófico, enquanto relativismo, é em si mesmo sem sentido, contrário à razão, o que já é motivo suficiente para não ser tolerado pela Santa Igreja. É um mal, e há males que não devem ser tolerados. O mesmo vale para o pluralismo teológico. Além disso, o pluralismo filosófico é um veneno para a teologia e um corruptor para a doutrina da fé, enquanto engano que engana e perversão que perverte.     

Santo Tomás, em sua Suma contra os Gentios, diz: “Confiando na piedade divina para prosseguir neste ofício de sábio, embora isto exceda nossas forças, temos por firme propósito manifestar, na medida do possível, a verdade que a fé católica professa, eliminando os erros contrários a ela”.