
Há quem critique a menção ao diabo na pregação católica e na fala sobre outras “religiões”. Porém, contra essa crítica, pode-se considerar o seguinte:
(I) Tal menção é adequada ao tema religioso, porque, enquanto “pai da mentira”, o diabo é também pai de mentiras religiosas, como os ídolos pagãos e as heresias, contra o verdadeiro Deus e a verdadeira religião, para malefício dos homens, os quais odeia.
(II) É parte relevante da instrução cristã a menção ao diabo, como mostra o Novo Testamento; e isso foi feito pelo próprio Cristo, várias vezes. Ora, Cristo é o modelo exemplar de pregação, de modo que criticar esse tipo de discurso religioso é criticar o próprio Cristo. Além disso, no ensino cristão, assim como em qualquer ensino de sabedoria natural para a vida, fala-se do bem, que deve ser estimado e feito, e fala-se do mal, que deve ser desprezado e evitado. E isso é parte do amor, em sua intenção benevolente de aproximar a pessoa amada do bem e afastá-la do mal. É um caso análogo ao do médico: ele não fala ao paciente somente da saúde e suas causas, mas também da doença e suas causas, como quem adverte, previne e indica o remédio.
(III) Se há modos inadequados de se falar do diabo, há também os modos adequados. Por exemplo: quem fala do diabo de maneira a superestimá-lo ou subestimá-lo, como se fosse um “deus mal” ao estilo maniqueísta ou apenas um símbolo abstrato para certos males, fala de modo inadequado e inculca o mal na mente alheia: o mal do erro, do engano, da ilusão, que é fonte de males. Se feito na verdade, com prudência e conforme a doutrina ortodoxa, é adequado e benéfico.
(V) Na Sagrada Escritura é dito: “Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44); “E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz” (2Cor 11,14); “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como leão que ruge, procurando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé, certos de que os vossos irmãos, espalhados pelo mundo, sofrem as mesmas aflições” (1Pe 5,8-9).

Temos que falar do Diabo, ou de qualquer nome que lhe seja atribuído, para permanecermos sempre vigilantes. Assim como, possivelmente, ele e seus correlatos nos afastam de Deus ao evitar que falemos d’Ele, ao nos recusarmos a falar daquele, acabamos, de forma inversa, nos aproximando de seus desígnios.
Quando ignorarmos sua existência, passamos também a desconhecer seus meios e métodos de nos desviar da salvação.
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