“As graças da Minha misericórdia colhem-se com o único vaso, que é a confiança”

“1576. Deves saber, filha Minha, que entre Mim e ti existe um abismo insondável, que separa o Criador da criatura, mas esse abismo será preenchido pela Minha misericórdia. Elevo-te até Mim, não porque necessite de ti, mas, unicamente por misericórdia, concedo-te a graça da união.

1577. Diz às almas que não impeçam a entrada da Minha misericórdia nos seus corações, pois Ela deseja tanto agir neles. A Minha misericórdia trabalha em todos os corações que lhe abrem as suas portas. E tanto o pecador como o justo necessitam da Minha misericórdia. A conversão e a perseverança são uma graça da Minha misericórdia.

1578. Que as almas que buscam a perfeição glorifiquem de maneira especial a Minha misericórdia, porque a liberalidade das graças que lhes concedo decorre da Minha misericórdia. Desejo que essas almas se distingam por uma ilimitada confiança na Minha misericórdia. Eu mesmo Me ocupo com a santificação dessas almas: Eu lhes fornecerei tudo o que for necessário para a sua santidade. As graças da Minha misericórdia colhem-se com o único vaso, que é a confiança. Quanto mais a alma confiar, tanto mais receberá. Grande consolo Me dão as almas de ilimitada confiança, porque em almas assim derramo todos os tesouros das Minhas graças. Alegro-Me por pedirem muito, porque o Meu desejo é dar muito, muito mesmo. Fico triste, entretanto, quando as almas pedem pouco, quando estreitam os seus corações.” (Cristo Misericordioso, no “Diário de Santa Faustina”)

Não é possível querer o que não se conhece

Exemplo de verdade inegável é que não é possível querer o que não se conhece.

Querer é sempre querer alguma coisa, porque do contrário seria querer nada, o que é o mesmo que não querer. Sem o ser não pode haver o querer. Quando não conheço algo, ela não existe para mim, ante minha consciência, de modo que é para mim um nada de consciência. Se é certo que sem o ser não pode haver o querer, também é certo que sem a consciência não pode haver o querer, porque o querer necessariamente é querer alguma coisa que se apresenta ante minha consciência. Assim, há um duplo nada que impede o querer: o nada de ser em si e o nada de ser na consciência. E se o querer naturalmente tende para o bem, se “não pertence à vontade querer senão o bem conhecido”, então há um triplo nada de ser ou um triplo não-ser que impede o querer em ato: o não ser em si, o não ser na consciência e o não ser bom – realmente ou aparentemente.

Santo Tomás de Aquino diz: “(…) Cada coisa relaciona-se com a bondade, como relaciona-se com o ser. Ora, as coisas impossíveis são aquelas que não podem ser. Logo, não podem ser boas. Por conseguinte, não podem ser queridas por Deus, que não quer senão aquilo que é ou que pode ser bom”.

 “Disse-lhes Jesus: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra”. (João 4, 34). “Então disse Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra”. (Lucas 1, 38).

Na verdadeira religião de Cristo, a Sagrada Eucaristia, “mistério sagrado que o amor produziu”, é lei divina

Santo Tomás diz: “O fim de qualquer lei, principalmente da divina, é formar homens bons”. O homem tem o dever de aceitar a verdadeira fé, tem o dever de conhecer a verdadeira religião de Cristo e de viver segundo suas leis, porque Deus é a Verdade. A verdadeira fé é lei divina, a verdadeira religião é lei divina, os dez mandamentos é lei divina. As leis divinas são bondades de Deus, bondades da Sabedoria Eterna. Conformar-se a elas, com o auxílio da graça, é o caminho da justiça, na qual está a paz e a felicidade, porque é dar a Deus o que é de Deus e receber de Deus o que Ele deseja nos conceder para que alegria do homem seja completa.

Na verdadeira fé da verdadeira religião de Cristo, a Sagrada Eucaristia, “Pão vivo, Pão do Céu… Mistério sagrado que o amor produziu” (Sta. Teresinha), é lei divina. Quem se opõe à Sagrada Eucaristia se opõe à lei divina e, consequentemente, se opões a Deus, ainda que não saiba. Como em Deus não há contradição, Deus jamais age contra si mesmo e suas leis. Assim, quem se opõe à Sagrada Eucaristia em nome de Deus está no engano e age como instrumento diabólico, porque é de grande interesse do império infernal destruir o tesouro da verdadeira fé, caminho de salvação.    

São João Apóstolo diz: “Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se levantaram no mundo. Nisto se reconhece o Espírito de Deus: todo espírito que proclama que Jesus Cristo se encarnou é de Deus; todo espírito que não proclama Jesus esse não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo de cuja vinda tendes ouvido, e já está agora no mundo (…) Quem conhece a Deus ouve-nos; quem não é de Deus, não nos ouve. É nisso que conhecemos o Espírito da Verdade e o espírito do erro” (IJo, 4, 1-6).

E Santa Teresinha do Menino Jesus diz: “Quando o diabo consegue afastar uma pessoa da Santa Comunhão, ele ganhou tudo… E Jesus chora!”

“A palavra anjo indica o ofício, não a natureza”

“É preciso saber que a palavra anjo indica o ofício, não a natureza. Pois estes santos espíritos da pátria celeste são sempre espíritos, mas nem sempre podem ser chamados anjos, porque somente são anjos quando por eles é feito algum anúncio. Aqueles que anunciam fatos menores são ditos anjos; os que levam as maiores notícias, arcanjos.

Foi por isto que à Virgem Maria não foi enviado um anjo qualquer, mas o arcanjo Gabriel; para esta missão, era justo que viesse o máximo anjo para anunciar a máxima notícia.

Por este motivo também a eles são dados nomes especiais para designar, pelo vocábulo, seu poder na ação. Naquela santa cidade, onde há plenitude da ciência pela visão do Deus onipotente, não precisam de nomes próprios para se distinguirem uns dos outros. Mas quando vêm até nós para cumprir uma missão, trazem também entre nós um nome derivado desta missão. Assim Miguel significa: “Quem como Deus?”; Gabriel, “Força de Deus”; e Rafael, “Deus cura”.

Todas as vezes que se trata de grandes feitos, diz-se que Miguel é enviado, porque pelo próprio nome e ação dá-se a entender que ninguém pode por si mesmo fazer o que Deus quer destacar. Por isto, o antigo inimigo, que por soberba cobiçou ser igual a Deus, dizendo: Subirei ao céu, acima dos astros do céu erguerei meu trono, serei semelhante ao Altíssimo (cf. Is 14,13-14), no fim do mundo, quando será abandonado às próprias forças para ser destruído no extremo suplício, pelejará com o arcanjo Miguel, como diz João: Houve uma luta com Miguel arcanjo (Ap 12,7).

A Maria é enviado Gabriel, que significa “Força de Deus”. Vinha anunciar aquele que se dignou aparecer humilde para combater as potestades do ar. Portanto devia ser anunciado pela força de Deus o Senhor dos exércitos que vinha poderoso no combate.

Rafael, como dissemos, significa “Deus cura”, porque ao tocar nos olhos de Tobias como que num ato de cura, lavou as trevas de sua cegueira. Quem foi enviado a curar, com justiça se chamou “Deus cura”.” (São Gregório Magno, Papa)

O Mestre Absoluto é Deus, que tudo sabe desde toda a eternidade

A verdade e a certeza são dois valores importantes da vida humana, da vida da consciência. A este respeito Santo Agostinho, instruído pela Sabedoria Divina, ensina: “A felicidade da vida é a posse da verdade, ou seja, a posse de Ti que és a Verdade”.

Há realidades que a inteligência humana tem que reconhecer sem poder negá-las com razão, pois são inegáveis, acima de qualquer dúvida razoável, certezas absolutas. A este respeito, São Boaventura diz: “A nossa inteligência compreende realmente uma afirmação, quando sabe com certeza que ela é verdadeira. E saber isso é saber verdadeiramente, porque há a certeza de não se enganar. Com efeito, a inteligência sabe que uma afirmação é verdadeira quando não pode ser de outra maneira e que, por conseguinte, é uma verdade imutável”.

Por exemplo: certamente é impossível alguém ser professor de si mesmo, porque é impossível alguém saber e não saber a mesma coisa ao mesmo tempo, porque quanto ao mesmo conhecimento ou sabe ou não sabe. O aprender leva ao saber e supõe o não saber. O verdadeiro professor é aquele que sabe e o verdadeiro aprendiz é aquele que não sabe. Como aquele que ensina, o professor deve ter o conhecimento em ato, e como aquele que aprende, a aprendiz não pode possui-lo em ato. Quem sabe algo não pode aprendê-lo enquanto sabe, porque não pode receber o que já possui, e quem não sabe não pode ensinar o que não sabe, porque não pode dar aquilo que não possui. Ser professor de si mesmo é diferente de aprender por si mesmo, como no caso das descobertas e dos autodidatas, porque nesse caso o conhecimento não está em sua consciência, mas disponível na realidade. Assim, a impossibilidade de alguém ser professor de si mesmo é uma verdade eterna sobre o ensino-aprendizagem, vale para todos os tempos, lugares e mundo possíveis, de modo imutável.  

Em sua “Suma contra os Gentios”, Santo Tomás de Aquino diz: “Com efeito, aperfeiçoa-se a alma humana pela ciência e pela virtude, pois, pela ciência, tanto mais é aperfeiçoada quanto mais considera as coisas imateriais, e a perfeição da virtude consiste em o homem não seguir as paixões corpóreas, mas em refreá-las e temperá-las pela razão”.

O Mestre Absoluto é Deus, que tudo sabe desde toda a eternidade, desde sempre e de modo todo simultâneo, e as criaturas capazes de aprender por si mesmas nada sabem e tudo o que sabem tem como fonte primeira o Criador.

A religião de Cristo é excludente: o puro não se mistura com o impuro nem a verdade com a falsidade

Na Sagrada Escritura é dito: “Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas. Disse aos que vendiam as pombas: “Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes”. Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: O zelo da tua casa me consome (Sl 68,10)”. (João 2, 13-17)

Como novo Elias, Cristo é aquele que se consome de zelo pelo Senhor, pela casa de seu Pai Eterno. É um zelo pela pureza da verdadeira religião, contra as perversões da malícia das criaturas espirituais, daqueles que a pervertem. O templo, lugar sagrado dedicado a Deus, é lugar de oração, para o devido culto divino, à devida adoração a Deus. Nada deve substitui-lo ou ofuscá-lo. Torná-lo uma casa de cambistas é impureza e perversão.

Elias excluiu do povo de Israel os sacerdotes de Baal e sua idolatria e Cristo Jesus exclui da casa de seu Pai os cambistas do templo e seus ídolos. Excluíram porque a verdadeira religião, que agrada a Deus, é excludente, porque o puro não se mistura com o impuro, nem o bem com o mal e a verdade com a falsidade.

O Divino Jesus fez um chicote de cordas. O chicote é um instrumento para punição corporal. Assim, a ação de Cristo significa a justiça divina que purifica o templo, pela expulsão dos homens carnais e suas ídolos, presentes no templo sagrado como manchas e perversões do ser essencial do templo enquanto ideia divina. Cristo é o Verbo Encarnado, o Logos Divino que se fez homem, que entende o significado verdadeiro de todas as coisas, que compreende a essência e a bondade de cada ser, porque tudo foi feito e permanece no ser por meio dele.

Maldade do ceticismo absoluto: a consciência humana vive do ser, da verdade e da certeza

O ceticismo absoluto é uma negação do conhecimento e da verdade, uma negação do saber verdadeiro para o homem. Porém, ele é falso, por pelo menos três razões. Primeiro, é contraditório em si mesmo, pois apresenta como saber que não é possível saber, que é certo que não há certeza. Segundo, é contraditório com aquilo que ele mesmo supõe necessariamente: saber o que é o saber, saber o que é o impossível e saber o que o homem não pode. Sem isso jamais haveria ceticismo. Terceiro, é contraditório com verdades inegáveis, como o “alguma coisa há e o nada absoluto não há”, porque ao negá-lo prova que alguma coisa há.

Assim, pode-se dizer que o ceticismo possui valor relativo, quando é amigo da verdade e não quando é inimigo da verdade, por negá-la, por negar ou ofuscar aquilo que é um bem para o homem, para sua alma.

A consciência vive do ser, no sentido em que, se não há o ser, não pode haver consciência. Em sua relação com o ser, para a consciência humana há limites, possibilidades positivas e possibilidades negativas, como o engano. Nas possibilidades positivas, há verdades eternas, certezas absolutas, realidades inegáveis. Exemplo disso é a impossibilidade do nada absoluto e a presença do ser necessário ou a presença necessária do ser, o que é evidente. E como é certo que uma verdade e uma certeza jamais são a única verdade e a única certeza, essa evidência inegável, vida para a mente humana que vive do ser, da verdade e da certeza, é rica de outra mais. Assim, por exemplo, o ser necessário exigido pela impossibilidade do nada absoluto é simultaneamente eterno, a plenitude do ser, totalmente perfeito, porque não pode ter nada de não ser.

Na Escritura é dito: “Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade. Por sua vontade é que nos gerou pela palavra da verdade, a fim de que sejamos como que as primícias das suas criaturas”. (Tg 1, 17-18). E é dito: “Sede bendito no templo de vossa glória santa, digno do mais alto louvor e de eterna glória! Sede bendito por penetrardes com o olhar os abismos, e por estardes sentado sobre os querubins, digno do mais alto louvor e de eterna exaltação! Sede bendito sobre vosso régio trono, digno do mais alto louvor e de eterna exaltação! Sede bendito no firmamento dos céus, digno do mais alto louvor e de eterna glória! Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor, louvai-o e exaltai-o eternamente!” (Daniel 3, 53-57)

A sabedoria do homem enquanto diferente e oposta à Sabedoria Divina é ilusão, falsidade, obstáculo para o bem e a felicidade

Na Sagrada Escritura é dito: “1.Meu filho, não te esqueças de meu ensinamento e guarda meus preceitos em teu coração 2.porque, com longos dias e anos de vida, eles te assegurarão a felicidade. 3.Oxalá a bondade e a fidelidade não se afastem de ti! Ata-as ao teu pescoço, grava-as em teu coração! 4.Assim obterás graça e reputação aos olhos de Deus e dos homens. 5.Que teu coração deposite toda a sua confiança no Senhor! Não te firmes em tua própria sabedoria! 6.Sejam quais forem os teus caminhos, pensa nele, e ele aplainará tuas sendas. 7.Não sejas sábio aos teus próprios olhos, teme ao Senhor e afasta-te do mal. 8.Isto será saúde para teu corpo e refrigério para teus ossos. 9.Honra ao Senhor com teus haveres, e com as primícias de todas as tuas colheitas. 10.Então, teus celeiros se abarrotarão de trigo e teus lagares transbordarão de vinho. 11.Meu filho, não desprezes a correção do Senhor, nem te espantes de que ele te repreenda, 12.porque o Senhor castiga aquele a quem ama, e pune o filho a quem muito estima” (Provérbios 3)

Os conselhos divinos são para o bem do homem, porque Deus é o Sumo Bem, fonte de toda bondade. Seus conselhos são daquele que tudo sabe, como a Sabedoria Benevolente, para aquele que não sabe e pode se enganar, em sua finitude e imperfeição. Se Ele diz “não te firmes em tua sabedoria”, é porque há algo de mal nisso, prejudicial ao homem. A sabedoria do homem enquanto diferente e oposta à Sabedoria Divina é ilusão, falsidade, obstáculo para o bem e a felicidade, pois é miséria. Assim, nesse conselho, Deus como que diz: “Eu sou a Sabedoria e contenho toda a sabedoria e posso ensiná-la, fazê-lo participante dela, por isso prefira a minha Sabedoria, que é verdadeira e frutífera, à sua presumida sabedoria, que é falsa e estéril de bondades, desejadas por sua alma criada por mim. Eu sou a Bondade, conheço tudo o que é bom e posso conceder o que é bom, como fiz na criação”.

“Verdade relativa” é algo sem sentido

Quem nega a existência da verdade, nessa negação confirma a existência verdade, porque ou teria que negar sua negação da verdade ou afirmar como verdade sua negação da verdade, e assim nos dois casos a verdade é afirmada. Enquanto algo que se diz das afirmações e negações com relação à realidade, a verdade não pode ser negada, de modo que sua existência é absoluta.

O filósofo Dietrich von Hildebrand diz: “O que decide sobre a questão da verdade ou não verdade de uma afirmação é, tão-somente, a realidade do ser em pauta. Desse modo, podemos ter em mente que a verdade tem o âmbito do ser. A verdade é o eco do ser”.

Em certo sentido da expressão, como no caso do relativismo, “verdade relativa” é algo sem sentido, algo que se opõe ao evidente princípio de contradição, que diz que nada pode existir e não existir ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, que ser e não-ser se excluem mutuamente. Assim, algo não pode em si mesmo ser verdadeiro para um e não ser verdadeiro para outro, porque em si mesmo é ou não é. Falar em “verdade relativa” é o mesmo que falar em “realidade relativa” ou “ser relativo” no sentido de haver um anjo que não é anjo ou um homem que não é homem. Em outro sentido, há sim realidades ou seres relativos, porém não no sentido anterior, porque há aí contradição, portanto impossibilidade. Logo, no sentido aqui considerado, “verdade relativa” é um sem sentido, um absurdo contrário à razão, e todas as negações da verdade inevitavelmente fracassam, até porque Deus é a Verdade por essência.

Sobre o reconhecimento da verdade, São Maximiliano Kolbe diz: “Ninguém pode mudar nenhuma verdade, pode-se somente buscar a verdade, encontra-la, reconhecê-la, conformar a ela a própria vida, caminhar na estrada da verdade em toda questão, sobretudo naquelas que se referem ao objetivo último da vida, o relacionamento com Deus, ou seja, nos problemas relativos à religião”.

E Cristo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).

Maria, a Senhora das Dores: a grandeza de seu sofrimento corresponde à grandeza de sua graça e de seu amor

Sofrer é experimentar algum mal. Do mesmo modo que não há sofrimento sem o mal, não há o mal sem o bem, porque o mal é certa falta ou privação de algum bem. Assim, o homem sofre por causa do mal, o que significa que sofre por causa de algum bem que lhe está ausente e deveria possuir. A realidade, como ordem divina do ser, é em si mesmo boa, a existência é um bem, o ser é bondade, antes de tudo a Bondade do Criador e depois as bondades das criaturas. Porém, pela divina revelação, o mal entra no mundo devido ao pecado do homem, que nisso se colocou num estado de privação da graça divina, da qual depende para ter uma vida feliz, sem a qual ele é como que miséria ambulante.

A Sagrada Escritura é um grande livro sobre o sofrimento. Nela, o Evangelho é também Evangelho do sofrimento, porém em sentido positivo, como diz a linguagem da Cruz. Segundo a palavra revelada presente na Escritura divina, o sofrimento humano possui pelo menos três significados importantes. Primeiro, como castigo pelo pecado, pois o Deus da revelação é Legislador e Justo Juiz, que pune pela maldade e premia pela bondade, como exige a Justiça Divina,  na ordem divina do ser governada pelo Criador. Segundo, como educação e purificação, do Deus misericordioso que deseja corrigir para que haja conversão, que é um bem para o homem. Terceiro, como virtude e mérito, que é o sofrimento do justo e inocente, que sofre livremente e nesse seu sofrimento consegue bens para si e para o outro. O sofrimento de Cristo, semelhante ao homem em tudo menos no pecado, e o sofrimento de sua Mãe Santíssima, desde sempre Imaculada, são sofrimentos de almas vítimas inocentes, no divino amor, na divina Misericórdia. Sofrem para libertar o homem do mal definitivo, acima de qualquer mal temporal, que é a perdição eterna no inferno sem fim, a terra dos desgraçados que rejeitaram a graça.

Sobre o Sofrimento de Maria, a Senhora das Dores, o teólogo católico Guarrigou-Lagrange diz: “O caráter de satisfação ou de expiação dos sofrimentos da Santíssima Virgem provém de que, como Nosso Senhor e com ele, ela sofreu pelo pecado ou pela ofensa feita a Deus. Ora, ela sofreu na medida de seu amor por Deus ofendido, de seu amor por seu Filho crucificado por causa de nossas faltas, e de seu amor por nossas almas que o pecado destrói e faz morrer. Esta medida foi, pois, a da plenitude de graça e de caridade, que desde o instante se sua concepção imaculada ultrapassa a graça final de todos os santos reunidos, e desde então não tinha cessado de crescer. Já pelos atos mais difíceis, Maria merecia mais que os mártires nos seus tormentos, porque colocava mais amor; qual não foi, portanto, o preço de seus sofrimentos aos pés da cruz, dado o conhecimento que recebeu do mistério da Redenção” .


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Sugestão de livros:

“Mãe do Salvador e a nossa vida interior” (Guarrigou-Lagrange)

“O Sentido Cristão do Sofrimento Humano” (Papa João Paulo II)