“A felicidade última do homem está na contemplação da verdade”

“Tudo o que está escrito, está escrito para o nosso ensino; a fim de que pela consolação das escrituras tenhamos esperanças” (Rm 1,54).

As Escrituras Sagradas foram feitas para o ensino dos homens. Todo ensino é ensino de algo e vale, antes de tudo, se o ensino é verdadeiro. O ensino de alo falso, se é possível, não tem valor nenhum naquilo que importa em primeiro lugar, pois a verdade é o bem da inteligência e, com a certeza, uma das perfeições do conhecimento.

Assim, a Sagrada Escritura, com seus verdadeiros ensinos divinos, e para a verdade entre os homens e, com isso, para o máximo bem do homem, que está em Deus, que é o Sumo Bem. Neste sentido, São Paulo ensina como revelação dos céus que Deus “quer que todos os homens de salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4).

É comum a Sagrada Escritura dizem quem é feliz ou o que contém traz felicidade. Pode-se dizer que a felicidade é um dos temas mais importantes da Escritura Divina, até porque a salvação homem significa sua felicidade eterna, em oposição a infelicidade eterna do inferno sem fim para os que escolheram habitar na maldade diabólica.  Essa felicidade eterna é o fim para o qual o homem foi criado por Deus em sua Bondade Onipotente.

Santo Tomás ensina: “Porque o homem é homem por causa da razão, é necessário que o bem que lhe é próprio, que é a felicidade, seja segundo a razão./ A felicidade última do homem está na contemplação da verdade. Aliás, essa é única atividade própria do homem, e dela de nenhum modo outro animal participa./ A felicidade última do homem consiste na contemplação da sabedoria, cujo objeto são as coisas divinas” (“Suma contra os gentios”). E Cristo ensina: “Eu sou o caminho, a verdade e vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6).

Deus é a Verdade e nada de falso lhe pertence: nem a falsa fé nem o falso amor

Santo Tomás de Aquino mostra que pela lei divina o homem tem o dever de aceitar a verdadeira fé, as verdades reveladas da verdadeira religião, pois, entre outras coisas, Deus é a Verdade e dirige o homem para a verdade, sem jamais propor algo que seja falso.

Uma coisa é amada e desejada enquanto conhecida, pois sem o ser amável e o conhecimento não pode haver amor. A verdadeira fé, enquanto verdade revelada sobre Deus e as coisas divinas que excedem a capacidade da razão humana, de certo modo é conhecimento. A verdadeira fé está para o verdadeiro amor assim como a falsa fé está para o falso amor. Nada de falso pertence a Deus. Assim como é próprio da lei divina afastar os homens do pecado, também lhe é próprio afastar as falsas opiniões a respeito de Deus e das coisas divinas, porque, além ser a Verdade, Deus quer a felicidade do homem, que só pode estar na verdade e no bem. Ao amar a Deus pela vontade e ao crer em Deus pela inteligência, o homem se submete ao Criador, que nisso é reconhecido como verdadeiro Deus, como o Bem que é a fonte de todo bem, a Sabedoria que é a fonte de toda sabedoria.

Neste sentido, São João Apóstolo diz: “Muito me alegrei, Senhora, por ter encontrado alguns dos teus filhos que caminham conforme a verdade, segundo o mandamento que recebemos do Pai. E agora, Senhora, eu te peço – não que te esteja escrevendo a respeito de um novo mandamento, pois trata-se daquele que temos desde o princípio – : amemo-nos uns aos outros. E amar consiste no seguinte: em viver conforme os seus mandamentos. Este é o mandamento que ouvistes desde o início para guiar o vosso proceder. Acontece que se espalharam pelo mundo muitos sedutores, que não confessam a Jesus Cristo encarnado. Está aí o Sedutor, o Anticristo. Tomai cuidado, se não quereis perder o fruto do vosso trabalho, mas sim, receber a plena recompensa. Todo o que não permanece na doutrina de Cristo, mas passa além, não possui a Deus. Aquele que permanece na doutrina é o que possui o Pai e o Filho”.

Sedutores são os homens de aparente sabedoria e bondade, que dizem palavras enganosas, cheias de falsidade e de negação do que pertence a Deus e à verdade religião, que antes de tudo é Cristo e está em seu Corpo Místico, sua Santa Igreja, Católica, Apostólica e Romana.  São como aqueles de que fala o profeta Isaías: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce! Ai daqueles que são sábios aos próprios olhos, e prudentes em seu próprio juízo!”. (Is 20, 20-21)

Como o conhecimento divino é perfeito, nele há sempre verdade e certeza

O conhecimento, assim como a ciência, e perfeito pela certeza e pela verdade. Como o conhecimento divino é perfeito, nele há sempre certeza e verdade. Além disso, a ciência divina conhece todas as coisas totalmente e intimamente, de modo todo simultâneo e imutável. Essa é a consciência divina, exemplar e fonte de toda consciência. Tudo para Deus é evidente, sem segredos nem mistérios, sem dúvidas nem enganos.

“Cada coisa conhecida por Deus é vista presencialmente” (Santo Tomás). Desde toda a eternidade, em total simultaneidade, cada coisa é conhecida por Deus presencialmente, como presença atual em sua Mente Divina onisciente, que é pura atualidade, puro ato.

O conhecimento de Deus tem a duração da eternidade, assim como seu Ser, que é sua Consciência, pois em Deus não há composição ser, partes diferentes em sua natureza. Assim, o seu conhecimento, a sua intelecção, própria de seu Ser Inteligência, é todo simultâneo, sem a mínima duração do tempo, que se realiza pela sucessão de antes e depois.

Em Deus não pode faltar conhecimento algum, pois do contrário não teria ciência perfeita e não seria causa total do ser, dado que as coisas são ou existem por sua Ciência. Algo que Deus não conhece é o mesmo que o nada, não existe de modo algum. A Mente Divina é onipotente no conhecer, no criar e no comunicar. Assim, é dito na Sagrada Escritura: “Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade” (Tg 1,17).

Servos da Verdade, instrumentos da Sabedoria

São Paulo diz: “Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para levar os eleitos de Deus à fé e a conhecerem a verdade da piedade que se apoia na esperança da vida eterna. Deus, que não mente, havia prometido esta vida desde os tempos antigos, e, no tempo marcado, manifestou a sua palavra por meio do anúncio que me foi confiado por ordem de Deus nosso salvador” (Tt1,1-3).

Deus é a Verdade e Cristo é a Verdade encarnada. São Paulo é servo de Deus e apóstolo de Cristo, e assim é servo e apóstolo da Verdade. A verdade da piedade é a verdade da verdadeira religião, que vem de Deus e leva para Deus, a Vida Eterna, o Bem. Na verdadeira religião a verdade tem máxima importância, sobretudo as verdades mais importantes. Cristo, que é Deus, disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Santo Tomás ensina que Deus é a verdade puríssima: “Como efeito, a verdade não comporta a falsidade, como branco não comporta negro. Ora, Deus não é somente verdadeiro, mas é a própria verdade. Logo, em Deus pode haver falsidade”.

Não há bem superior a vida eterna, e por isso ela é o fim último da vida humana e da verdadeira religião. A vida eterna é o próprio Deus, que é Vivente e Eterno. O que Deus é por essência, o homem salvo por Cristo recebe por participação. Sem realidade participada não pode haver realidade participante. Assim, sem a Vida Eterna de Deus não pode haver a vida eterna para o homem. E como essa participação é um efeito, ela exige uma causa, pois não pode haver efeito sem causa. A causa é o próprio Deus em sua Bondade Onipotente, em sua Misericordia.

Deus é eterno, seu Ser e ser Conhecer são totalmente simultâneos, sem a sucessão de antes e depois própria do tempo. Diante d’Ele todas as coisas, o que inclui os tempos, estão presentes em máxima luminosidade. O tempo marcado é o tempo da Providência que tudo vê, pode e decide, governando todas as coisas com o modo próprio de cada uma, as árvores como árvores e os homens como homens. O Deus que tudo conhece também é Mestre: sabe perfeitamente, com verdade, certeza e totalidade, e comunica conhecimento à criatura capaz de recebê-lo, a exemplo dos profetas, servos da Verdade, instrumentos da Sabedoria.

“Feliz do homem que encontrou a sabedoria”

Em Provérbios é dito: “Feliz do homem que encontrou a sabedoria, daquele que adquiriu a inteligência, porque mais vale este lucro que o da prata, e o fruto que se obtém é melhor que o fino ouro. Ela é mais preciosa que as pérolas, joia alguma a pode igualar”(3,13-15).

No Evangelho Cristo fala dos bem-aventurados, dos homens felizes, e nisso fala onde está a felicidade ou o que a traz. Por exemplo, Ele diz “felizes os puros de coração, porque verão a Deus”. Ver a Deus no sentido dito por Cristo Jesus é ser feliz, o que é proporcionado pela de coração. Um coração puro, purificado ou mantido puro pelo próprio Deus, está apto a ver a Deus, o que é o mesmo que contemplar a Verdade, a plenitude do Ser, que é toda a felicidade. A revelação do Antigo Testamento é parte essencial da Revelação Cristã. O que é dito em Provérbios e palavra de Deus, instrução divina. Nele é dito que feliz é o homem que encontrou a sabedoria, que adquiriu a inteligência. Assim, segundo o mesmo Espírito da Verdade, a posse da sabedoria, da inteligência e da pureza de coração faz o homem feliz, são para a criatura humana causa de felicidade. Esse é também um ensinamento dos mistérios gozosos do Santo Terço Mariano, porque neles são ensinadas a alegria da pureza e da sabedoria.

Essa sabedoria não é nenhuma das três falsas sabedorias mencionadas por São Luís de Montfort, que são a “sabedoria terrestre”, do amor pelos bens da terra, a “sabedoria carnal”, do amor pelo prazer, e a “sabedoria diabólica”, do amor pela estima e honrarias. E também não é ainda a ‘sabedoria natural”, dos filósofos, embora possua seu valor pelo valor das verdades nela contidas, como os princípios universais do ser. Como diz São Luís: “Tal sabedoria consistia num conhecimento eminente  da natureza, nos seus princípios. Foi comunicada na sua plenitude a Adão, no seu estado de inocência, e foi dada em abundância a Salomão; no decorrer dos séculos, mais um ou outro grande personagem a recebeu, como refere história”. (“O Amor da Sabedoria Eterna”)     

A ordem da Providência Divina abrange todas as coisas

Em sua Carta aos Romanos, São Paulo Apóstolo diz: “A ira de Deus se manifesta do alto do céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a verdade. Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lhes revelou com evidência. Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar. Porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e se lhes obscureceu o coração insensato”. (Rm 1,18-21)

É próprio da criação a participação, porque as criaturas são realidades participantes da realidade participada, que é o Criador, com graus de semelhança finitos, com perfeições limitadas em relação às perfeições infinitas de Deus, no qual não há qualquer imperfeição.

As realidades sensíveis são realidades criadas, são sinais de realidades invisíveis, espirituais e imateriais, das coisas da inteligência, sobretudo do Criador, que é a causa total e ordenadora de toda a criação. Se há bondade, ordem, sentido e sabedoria na realidade, tudo isso vem do Supremo ordenador, da Sabedoria Divina e não do acaso e do caos, que excluem a ordem e por isso não a contêm e dela não podem surgir como efeito duradouro e permanente.

A lei da causalidade é eterna e assim é limitadora e relativizadora do caos e do acaso, se de algum modo existem. Pelos princípios universais do ser, como o de não contradição e o de causalidade, não há nada absolutamente caótico, desordenado e ao acaso. E não há de modo algum se reconhecemos Deus e sua Providência Divina a qual tudo está submetido. Santo Tomás de Aquino diz: “Deve-se primeiramente saber que, sendo Deus a causa de todas as coisas existentes, porque dá o ser a todas elas, é necessário que a ordem da sua Providência abranja todas as coisas. Pois, às coisas, às quais Deus dá o ser, necessariamente lhes dá a conservação e lhes confere a perfeição no fim último”. (“Suma Contra os Gentios”).

“Devemos considerar o Purgatório como o último ato de misericórdia de Deus”

“Quando se fala do Purgatório, não é raro apresentá-lo como um inexorável e pouco menos que impiedoso ato da Justiça Divina.

Certamente o Purgatório é um lugar de tormentos penosíssimos frente aos quais as penas da vida presente são quase flores do campo rodeadas de espinhos. Mas, as penas do Purgatório, embora sejam gravíssimas, são uma amorosa purificação, para transformar a alma, capacitando-a para a perfeita felicidade do Paraíso.

É uma verdadeira luta de amor: Deus que ama a alma, a purifica por amor. A alma que ama a Deus tende para Ele, está contente de se purificar, ainda que sofrendo amargamente, porque pondera a gravidade de suas próprias faltas, que lhe impedem o pleno gozo da união com Deus: É, portanto, uma verdadeira luta de amor entre Deus e a alma, e é necessário eliminar da concepção do Purgatório todas aquelas falsas ideias, que o fazem conceber como uma vingança da divina justiça, e como uma prisão terrível, na qual a alma geme sem consolo.

Como seria se cruel o namorado que amarrasse a namorada com algemas para prepará-la para a felicidade no casamento? Quem poderia desfrutar de um belíssimo panorama com o olho remelento, ou com uma penugem que o nublam e o incomodam? Neste caso seria crueldade colocar no olho o colírio ardente, ou virar a pálpebra para tirar a penugem? (…)

Deus é amor, é infinita caridade, e se nós peregrinos do vale de lágrimas não o consideramos sob a luz de seu infinito amor, não o amamos verdadeiramente. Se o temor de Deus, que é um dom do Espírito Santo, não é inspirado pelo amor, não gera na alma a confiança, mas apenas o temor.

Devemos considerar o Purgatório como o último ato de misericórdia de Deus que, pela necessária purificação, conduz a alma à glória e felicidade do Paraíso.

Queremos mostrar com as pobres y limitadas luzes humanas, qual é a maravilhosa vitória da luta de amor entre Deus e a alma no Purgatório. Diante de tanto amor, a alma sente ainda mais o dever de levar uma vida santa na terra, para ser digna do abraço divino na eterna felicidade”. (Dolindo Ruotollo, sacerdote e místico católico, em “O Purgatório”, 1959).

“Toda a vossa fé fundamenta-se na obediência; obedecendo, sois fiéis”

Cristo disse que não veio abolir a lei nem profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento. Isto possui vários significados para a religião. Um deles é: o cristianismo é sim uma religião da lei e da obediência, porque isso glorifica a Deus e é bom para o homem, já que contém a promessa de realização de seu desejo natural de uma vida duradouramente feliz, pela posse do sumo Bem. A este respeito, Deus Pai ensina Santa Catarina Sena:

“Toda a vossa fé fundamenta-se na obediência; obedecendo, sois fiéis. De modo geral eu vos impus a obediência aos Mandamentos da Lei (mosaica), dos quais o principal é que me ameis acima de todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos (Mt 22,37-39). Quem observa esses dois preceitos observa todos os outros, é fiel a mim e aos homens, ama-me e conserva-se na caridade fraterna. Tal pessoa é obediente, submete-se aos Mandamentos e ao próximo por minha causa, suporta humildemente e com paciência todas as dificuldades e maledicências.

Esta obediência comum é muito importante; graças a ela recebestes a graça, assim como pela desobediência a tínheis perdido (Rm 5,19). Importante, mas insuficiente se fosse praticada somente por meu Filho e não por vós. Como afirmei, ela é a chave com que o céu foi aberto. (…)”

Obedecer é oferecer sua vontade a Deus, é fazer a Vontade de Deus, é submeter-se a Ela, como Cristo, que disse: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia, não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres”; e como Maria Santíssima, que disse: “eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”.

Os 7 Sacramentos: remédios do benefício da morte de Cristo

“(…) A morte de Cristo é como a causa universal da salvação humana. Ora, a causa universal deve ser aplicada a cada efeito. Por isso, foi necessário mostrar aos homens alguns remédios pelos quais lhes fosse aplicado de certo modo o beneficio da morte de Cristo. Esses remédios são sacramentos da Igreja”.

– Foi também conveniente que esses remédios fossem acompanhados de sinais visíveis. Primeiro, para que Deus providenciasse algo também para o homem, segundo a condição do homem, tal como providenciou para as demais coisas. Ora, é da condição humana aprender naturalmente as coisas espirituais e inteligíveis, mediante as coisas sensíveis, Por isso, foi conveniente serem os remédios espirituais dados aos homens por sinais sensíveis.

– Segundo, porque os instrumentos devem ser proporcionados à causa primeira. Ora, a primeira e universal causa da salvação humana é o Verbo encarnado, como se depreende do que foi dito acima. Por isso, foi conveniente que os remédios me diante os quais a virtude da causa universal atinge os homens tivesse semelhança com esta causa, isto é, que neles a virtude divina operasse invisivelmente por sinais visíveis.

(…)

– Para a vida corpórea e natural, são essencialmente necessárias três e uma quarta é necessária acidentalmente. Assim é necessário, em primeiro lugar, que pela geração ou nascimento se receba a vida; em segundo lugar, é necessário que pelo aumento chegue à quantidade devida e a força, em terceiro lugar é necessário alimento para a conservação da vida recebida por geração e para o desenvolvimento. Essas coisas são essencialmente necessárias para a vida natural, porque sem elas a vida corpórea não atinge a perfeição. (…) Mas, como na vida corpórea acontece aparecer algum impedimento, devido ao qual a coisa viva se enfraquece, é acidentalmente necessária uma quarta coisa, que é a cura do ser vivo doente.

– Também na vida espiritual há, em primeiro lugar, a geração espiritual pelo Batismo; em segundo lugar, o crescimento espiritual que leva à perfeita robustez, pelo sacramento da Confirmação; em terceiro lugar, o alimento espiritual, que é o sacramento da Eucaristia. Resta, ainda, em quarto lugar, a cura espiritual que se dá, só na alma, pelo sacramento da Penitencia, ou que da alma se estende para o corpo pelo sacramento da Extrema Unção. Essas coisas pertencem àqueles que foram gerados e se conservam na vida espiritual.

– Mas, os que propagam e ordenam a vida corpórea são considerados sob duplo aspecto: segundo a origem natural, o que cabe aos pais; e segundo o regime político pelo qual se conserva em paz a vida dos homens, e isto cabe aos reis e aos príncipes. 5. Acontece o mesmo com a vida espiritual. Com efeito, há os propagadores e conservadores da vida espiritual somente segundo o ministério espiritual, aos quais pertence o sacramento da Ordem, e há os que o são segundo o ministério corporal e espiritual simultaneamente, o que é feito pelo sacramento do matrimônio. Nesse, o homem e a mulher se unem para gerar a prole e para educá-la para o culto divino”. (Santo Tomás de Aquino)

“Sabiamente organizei o universo e com ordem o governo”

O Primeiro Princípio de todas as coisas é Deus, que existe eternamente, sem princípio nem fim, de modo todo simultâneo, na plenitude de seu Ser totalmente perfeito. A partir de si mesmo, em sua Onipotência que contém todos os possíveis, Ele por livre vontade decide criar céus e terra, concede existência, perfeições e bondades no ato da criação. Os céus e a terra, as coisas visíveis e invisíveis, são realidades criadas por um Criador Onipotente, que é Sabedoria, Liberdade e Amor. Assim, as criaturas são frutos do Logos, da Liberdade e do Amor Divino, participantes de seu Ser, ideias divinas que possuem verdade e bondade de essência. Na Sagrada Escritura é dito: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito” (João 1,1-3).

A este respeito Santa Catarina de Sena escreve o que Deus Pai lhe disse: “Sabiamente organizei o universo e com ordem o governo. Nada lhe falta, nada lhe pode ser acrescentado. Também na alma e no corpo humano, tudo foi previsto sem qualquer exigência prévia de vossa parte. Não existíeis, quando vos criei. Então somente existia meu Espírito (Gn 1,2). Espontaneamente criei o céu e a terra, o mar e o firmamento, o céu a movimentar-se em cima de vós, o ar necessário à respiração, o fogo e a água que mutuamente se apagam, o sol que afugenta a escuridão. Tudo ordenei segundo as necessidades do homem: a atmosfera ornada de pássaros, a terra que germina frutos, os numerosos animais que servem de alimento, o mar com seus peixes. Tudo fiz com ordem e providência. E, depois de dar o ser a todas as coisas com bondade e perfeição, criei o homem à minha imagem e semelhança e o coloquei nesse jardim. Infelizmente, por causa do pecado de Adão, esse jardim produziu espinheiros onde antes só havia flores perfumadas, puras, belíssimas na inocência. Antes do pecado, os seres obedeciam ao homem; depois, por culpa da desobediência de Adão, o homem sentiu a rebeldia dentro de si e nos seres. Selvagem ficou sendo o mundo; igualmente o homem, que constitui um outro mundo” (“O Diálogo”, pág. 332).