O Filho único da Pai e a sabedoria da salvação

Cristo disse: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do Filho único de Deus”. Eis o motivo da condenação para os condenados, segundo o próprio Cristo. A fé verdadeira é sabedoria da salvação. Crer em Cristo, em seu nome, isto é, em quem Ele é, significa receber a sabedoria e nela permanecer no transcorrer da vida. Não crer em Cristo é negar esta sabedoria da salvação, portanto significa estar privado dela e de seus frutos, o que é mal, que tende a se perpetuar para todo o sempre, caso não haja mudança em tempo, como passagem do mal para o bem, conforme as palavras de Cristo: “Convertei-vos e crede no evangelho”.

Se o nome diz o ser, o nome de Cristo diz o ser de Cristo, que, pelo conhecimento da fé, pela divina revelação, é o Deus-homem, o Filho de Deus feito homem, o Messias redentor, o Caminho, a Verdade e a Vida, Senhor e Deus, o Cordeiro de Deus, como é dito nas Sagradas Escrituras.  Porque é tudo isso de fato, Ele deve ser escutado como divino Mestre fonte de verdade certa e benéfica, deve ser amado como quem merece todo o amor, deve ser obedecido como o Senhor de todas as coisas, deve ser adorado como Deus verdadeiro que é. E tudo isso está incluído no crer no nome do Filho único do Pai.

“Não fazemos o que sabemos, sem querermos”

Cristo disse: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Marcos 16,16).

A salvação é a vida eterna em Deus, o Sumo Bem, e a condenação é o inferno perpétuo, o sofrimento sem fim pela privação do mesmo Deus, que foi preterido pela alma condena ao preferir bens inferiores, no quais colocou a vontade e pelos quais pecou gravemente.

Pela necessidade da fé, como preceito divino, pela liberdade da fé, enquanto ato humano da criatura racional dotada de livre arbítrio, e pela obediência da fé, mostrada como viva e verdadeira pelas obras que seguem os mandamentos e os conselhos divinos para o bem e o melhor, ela está diretamente ligada à salvação e à perfeição.  

Em sua Suma Teológica, Santo Tomás de Aquino diz: “A ciência não é causa do que fazemos, senão pela vontade; pois, não fazemos o que sabemos, sem querermos”.

“O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida… nem no céu, nem no inferno”

“Diligência, meu filho, — diz o Espírito Santo, —  em empregar bem o tempo, porque é a coisa mais preciosa, riquíssimo dom que Deus concede ao homem mortal. Até os próprios gentios tinham conhecimento de seu valor. Sêneca dizia que nada pode equivaler ao valor do tempo. Com maior estimação ainda o apreciaram os Santos. Afirma São Bernardino  de Sena  que um só momento vale tanto como Deus,  porque nesse instante, com um ato de contrição ou de amor perfeito, pode o homem adquirir a graça divina e a glória eterna.

O tempo é um tesouro que só se acha nesta vida, mas não na outra, nem no céu, nem no inferno. É este o grito dos condenados: Oh! Se tivéssemos uma hora!… Por todo o preço comprariam uma hora a fim de reparar sua ruína; porém, esta hora jamais lhes será dada. No céu não há pranto; mas se os bem-aventurados pudessem sofrer, chorariam o tempo perdido na sua vida mortal, o qual lhes poderia ter servido para alcançar grau mais elevado na glória; porém, já se passou a época de merecer. Uma religiosa beneditina, depois da morte, apareceu radiante de glória a uma pessoa e lhe revelou que gozava plena felicidade, mas, se algo pudesse desejar, seria unicamente voltar ao mundo para sofrer mais e assim alcançar maior mérito. Acrescentou que de boa vontade sofreria até ao dia do juízo a dolorosa enfermidade que a levou à morte, contanto que conseguisse a glória que corresponde ao mérito de uma só Ave-Maria.

E tu, meu irmão, em que empregas o tempo?…  Por que sempre adias para amanhã o que podes fazer hoje? Reflete que o tempo passado desapareceu e já não te pertence; que o futuro não depende de ti.

Só dispões do tempo presente para agir… Ó infeliz! — adverte São Bernardo, — por que ousas contar com o vindouro, como se Deus tivesse posto o tempo em seu poder?”. E Santo Agostinho disse:  Como te podes prometer o dia de amanhã, se não dispões de uma hora de vida? “Daí conclui Santa Teresa: “Se não estiveres preparado hoje para morrer, teme morrer mal…”.

(Santo Afonso Maria de Ligório, em “Preparação para a Morte”)

“Quem não crer será condenado”

Cristo disse: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado” (Marcos 16,16). Com relação à verdadeira fé divina, podem ser considerados os seguintes pontos importantes:

(I) A GRAÇA DA FÉ, enquanto dom que vem de Deus, enquanto virtude sobrenatural infundida por Deus, o qual é a fonte de todos os bens; (II) O ATO DE FÉ, enquanto ato humano que implica a inteligência e a vontade, que decide com liberdade de escolha e é responsável pelo bem ou mal que feito; (III) a LIBERDADE DA FÉ, enquanto o homem não é forçado a crer mas livremente colabora ou não com a graça divina, no sentido daquilo que diz Santo Agostinho, de que “o Deus que te criou sem ti não te salvará sem ti”; (IV) a NECESSIDADE DA FÉ, enquanto necessária para a salvação, segundo as palavras de Cristo, e sem a qual é impossível agradar a Deus (Hb 11,6); (V) a OBEDIÊNCIA DA FÉ, enquanto deve ser mostrada como viva e verdadeira pelas realização das obras mandadas ou aconselhadas diretamente por Cristo e pelas autoridades que ele instituiu em sua verdadeira Igreja, como seus ministros, seus representantes, a começar pelos Apóstolos; (VII) a CERTEZA DA FÉ, enquanto modo de conhecimento certo, que exclui a dúvida, cujo conteúdo são verdades reveladas, ciência comunicada por Deus, que não engana nem se engana; (VIII) os MOTIVOS DA FÉ, enquanto suas verdades são aceitas como tais não por serem evidentes à luz da razão humana e sim por causa da autoridade do Deus que revela, no qual não há falsidade possível, como ensina dogmaticamente o Concílio Vaticano I, em exercício de autoridade do Magistério da Igreja, o mesmo que fala também dos motivos de credibilidade da fé, como os milagres, que, enquanto modo de confirmação da verdade, são como que “argumentos exteriores” da fé, a qual não pode ser provada pela razão porque excede esta mesma razão; (IX) os PREÂMBULOS DA FÉ, enquanto são aquelas verdades que a razão humana pode naturalmente alcançar e demonstrar, como a existência de Deus e certos atributos seus, a existência da verdade absoluta, a existência dos primeiros princípios imutáveis, como o inegável princípio de não contradição, a capacidade humanada de conhecer a realidade, a existência da alma espiritual no homem, a existência da livre arbítrio na pessoa humana, a existência da moralidade objetiva, como a lei natural, etc.; verdades naturais que as sobrenaturais supõem, cuja negação é obstáculo para a fé e cuja devida aceitação concorre para a fé, no sentido de a razão humana ter razões que mostram objetivamente que é razoável crer naquilo que está acima da razão, porém jamais contra ela, como algo que excede sua capacidade natural, na medida em que é naturalmente finita, embora de alcance relativamente abrangente na totalidade do ser.     

O justo vive da fé

Cristo disse: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do Filho único do de Deus” (Jo 2,18). No caso, crer significa crer com a obediência fé, pois são Paulo Apóstolo diz que Cristo Jesus se tornou causa de salvação para todos aquele que lhe obedecem (Hb 5,9); significa, como ele também o diz, uma fé que age pela caridade (Gl 5,6), pelo amor, uma fé com as obras dos mandamentos, tal como é dito ao jovem rico, com as obras de misericórdia, tal como é dito dos benditos no dia do juízo, com as obras das virtudes, o que inclui, para a perfeição, as obras dos conselhos evangélicos, tal como é dito nas bem-aventuranças.

Sobre o ato de crer, Santo Tomás diz: “o crer é ato do intelecto, que assente à verdade divina, por império da vontade, movida pela graça de Deus; assim, depende do livre arbítrio ordenado para Deus. Logo, o ato de fé pode ser meritório” (Suma Teológica). O crer, no sentido da fé divina, pode ser considerado de dois modos: crer em Cristo, enquanto quem ele é, no caso, é o Verbo Encarnado, o Deus-Homem redentor dos homens, e crer que suas palavras são verdadeiras, palavras de vida eterna, daquele que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade, daquele que é a Verdade e a Vida. Assim, é um “crer em”, dirigido como entrega confiante a uma pessoa agente, e um “crer que” algo é verdade, real, em oposição ao falso, ao ilusório.

Desse modo, porque creio realmente, vivo em consequência, na sequência de atos voluntários de minha vida humana temporal em suas circunstâncias mutáveis. Como ensina Santo Tomás, “o primeiro bem necessário para o cristão é a fé. Sem a fé ninguém pode ser chamado de fiel cristão”. Assim, a fé verdadeira é um bem fonte de muitos bens. Entre eles está o seguinte: nela há princípios para o bem viver, princípios religiosos da verdadeira religião para uma vida boa, enquanto nos levam a fazer o bem e evitar o mal, segundo a sabedoria divina, e não segundo qualquer opinião humana ou conselhos diabólicos, e assim é dito que o justo vive da fé (Hab 2,4).

“Pés pressurosos em correr ao mal”

Em Provérbios (6,16-19) é dito que Deus detesta “pés pressurosos em correr ao mal”.

Princípio, em sentido elevado na ordem do ser, é aquilo que é necessário, enquanto algo que não pode ser de outro modo, e absoluto, enquanto algo que, pelo menos sob algum aspecto, é não dependente (ou relativo). Um princípio moral fundamental, imutável, é aquele que diz que o homem deve fazer o bem e evitar o mal, por razões do ser objetivo, primeiro pelo Ser de Deus e segundo pelo próprio ser do homem. A este respeito, por exemplo, no livro do profeta Isaías é dito por Deus: “Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem” (1,17); e no salmo 33 é dito: “Afasta-te do mal e faze o bem”.

Aquele que tem “pés pressurosos em correr ao mal” vai contra este princípio da sabedoria, de modo decidido, engajado, inclinado para o mal como quem o deseja intensamente. Este homem é culposamente imprudente, ou seja, é precipitado, sem a devido ponderação, e negligente.

Como em Deus não há indiferença, porque não há coisas indiferentes, isto é abominado por Ele, enquanto não é amável pela ausência da devida bondade, especialmente a bondade moral que corresponde aos atos da vontade livre.

Em Tessalonicenses, ao instruir sobre os enganos do império do Anticristo, São Paulo diz: “Ele usará de todas as seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar. Por isso, Deus lhes permitirá um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro. Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas consentiram no mal” (2Ts 2,10-12).

Falta de confiança!

“Às vezes a vida é muito dura! Parece que não existe nenhuma saída. Não se fura um muro com a cabeça. A situação é triste, dura, terrível às vezes e desesperadora.

Mas por quê? É realmente tão terrível assim viver neste mundo? Por acaso Deus não sabe tudo? Não é todo-poderoso? Não estão em suas mãos todas as leis da natureza e todos os corações dos homens? Pode acontecer algo no universo sem a Sua permissão?… E se é Ele que o permite, por acaso pode permitir algo que não seja para o nosso bem, por um bem maior, o maior bem possível?…

Mesmo no caso que, por um instante, nós recebêssemos uma inteligência infinita e conseguíssemos compreender todas as causas e os efeitos, nada do que escolheríamos para nós seria diferente do que Deus permite, já que sendo infinitamente sábio, Ele conhece perfeitamente o que é melhor para a nossa alma; além disso, sendo infinitamente bom, quer e permite só o que nos serve para a nossa maior felicidade no paraíso.

Por que então, às vezes, estamos tão abatidos? Porque não vemos a relação que existe entre a nossa felicidade e estas circunstâncias que nos afligem, antes, por causa da limitação da nossa cabeça (ela entra somente num gorro ou num chapéu), não somos capazes de conhecer tudo.

O que devemos fazer, então?

Confiar em Deus. Por, meio desta confiança, mesmo que não compreendamos diretamente as coisas, damos a Deus uma grande glória, já que reconhecemos a Sua sabedoria, Sua bondade e o Seu poder.

Confiemos em Deus, portanto, mas confiemos sem limites. Devemos estar convencidos de que, se cumprirmos Sua Vontade, não nos poderá acontecer nenhum mal, mesmo que tenhamos de viver em tempos mil vezes mais difíceis do que os atuais.

Então, não devemos preocupar-nos em prevenir e afastar as dificuldades? Claro que sim, pode-se e se deve fazer isso; no que depende de nós é preciso fazer todo o possível para eliminar os obstáculos no caminho da nossa vida, mas sem inquietudes, sem angústia e, mais ainda, sem desesperada incerteza. Estes estados de ânimo, de fato, não somente não nos ajudam a resolver as dificuldades, mas nos tornam incapazes de agir com sabedoria, prudência e rapidez.

Além disso, em qualquer circunstância, não devemos esquecer de repetir com Jesus no Horto das Oliveiras: “Seja feita não a minha, mas a Tua vontade” [Lc 22,42]. E se, como aconteceu no Horto das Oliveiras, Deus achar oportuno enviar um cálice para que o bebamos até a última gota, não esqueçamos que Jesus não só sofreu, mas ressuscitou glorioso; e que nós chegaremos à ressurreição também através do sofrimento. Aliás, nós nos apegamos demais a esta miséria terra: o que aconteceria se de vez em quando não nos picasse nenhum espinho? Se fosse assim, quem sabe nos viesse a tentação de construir um paraíso nesta terra de pó e lama.

Confiemos, portanto, confiemos ilimitadamente em Deus através da Imaculada, e busquemos, segundo as possibilidades de nossa mente e de nossas forças, a solução dos nossos problemas, mas com serenidade, confiando na Imaculada e colocando sempre a vontade de Deus acima da nossa. As cruzes, tornar-se-iam para nós (como é justo) os degraus para a felicidade da ressurreição no paraíso.”

(São Maximiliano Kolbe, anos de 1932-1933/ em “Escritos de São Maximiliano Kolbe”)

“Guarda tua língua do mal, e teus lábios das palavras enganosas”

Em Provérbios é dito: “Seis coisas há que o Senhor odeia e uma sétima que lhe é uma abominação: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, um coração que maquina projetos perversos, pés pressurosos em correr ao mal, um falso testemunho que profere mentiras e aquele que semeia discórdias entre irmãos”. (6,16-19)

Língua mentirosa equivale a agir contra o verdadeiro, contra o devido respeito pela verdade, ao seu valor intrínseco, à sua importância objetiva, enquanto algo que pertence a Deus, que é a Verdade puríssima fonte de todas as verdades. Assim, a língua mentirosa é uma língua que traz um desrespeito por aquilo que é a voz da realidade e o bem da inteligência.

Este é o caso, por exemplo, do mentiroso astuto, “que não se importa nada de afirmar o contrário da verdade, desde que lhe convenha aos objetivos, que se propõe enganar os outros por algum interesse egoísta. (…) O verdadeiro mentiroso está ciente de que mente. Sabe que ignora a realidade” (Dietrich von Hildebrand). Assim, a língua mentirosa é a língua da falsidade maliciosa para fins egoístas, contra o amor a Deus e o amor ao próximo, sem o devido respeito pela bondade da verdade, que é bem fonte de bens, próprio da ordem divina do ser.

Certa vez Jesus disse a alguns judeus: “Se Deus fosse vosso pai, vós me amaríeis, porque eu saí de Deus. É dele que eu provenho, porque não vim de mim mesmo, mas foi ele quem me enviou. Por que não compreendeis a minha linguagem? É porque não podeis ouvir a minha palavra. Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque a verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira. Mas eu, porque vos digo a verdade, não me credes”. (Jo 8,42-45)

E no salmo 33 é dito: “Guarda tua língua do mal, e teus lábios das palavras enganosas. Aparta-te do mal e faze o bem, busca a paz e vai ao seu encalço”.

Eis uma verdade absoluta: nada pode causar a si mesmo

Eis uma verdade absoluta: nada pode causar a si mesmo. Isto equivale a dizer que nada pode ser efeito de si mesmo.

Uma razão simples que exige reconhecê-lo. Para algo causar a si mesmo seria necessário existir antes de existir, sob o mesmo aspecto, o que é impossível, por haver nisto autocontradição; e o que é absolutamente impossível, como um círculo quadrado, não pode existir de modo algum.

Em síntese: pelo indestrutível princípio de não contradição, nada pode causar a si mesmo. Negá-lo é ir contra a razão, em um de seus princípios fundamentais, sem o qual nada poderia ser afirmado, é ir contra as experiências humanas mais evidentes e ir contra o ser, em uma de suas leis universais imutáveis.

Em sua “Suma contra os Gentios”, Santo Tomás diz: “(…) Ora, o conhecimento dos princípios naturais evidentes é infundido em nós por Deus, pois Deus é o autor da natureza. Por conseguinte, esses princípios estão também contidos na sabedoria divina. Assim também, tudo o que é contrário a eles contraria a sabedoria divina e não pode estar em Deus. Logo, as verdades recebidas pela revelação divina não podem ser contrárias ao conhecimento natural”.

Assim, em Números é dito: “Deus não é homem para mentir, nem alguém para se arrepender. Alguma vez prometeu sem cumprir? Por acaso falou e não executou?” (23,19). E São João Apóstolo diz: “Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se levantaram no mundo. Nisto se reconhece o Espírito de Deus: todo espírito que proclama que Jesus Cristo se encarnou é de Deus; todo espírito que não proclama Jesus esse não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo de cuja vinda tendes ouvido, e já está agora no mundo.” (4,1-3).

Verdadeira consciência e “esquecimento de si”

No livro “Nossa Transformação em Cristo”, o filósofo católico Dietrich von Hildebrand, observa que na vida cristã, no processo interior de transformação em Cristo, é importante o exercício da verdadeira consciência, em oposição às espécies de falsa consciência, perversões que são obstáculos para a posse de bens objetivos relevantes. A falsa consciência, enquanto perniciosa, pode destruir a vida interior de uma pessoa, de modo que é necessário eliminá-la, ou evitá-la ao máximo, afastando-a totalmente.

Um tipo de falsa consciência maléfica é aquela quando um homem faz incidir sua atenção continuamente sobre si mesmo, que a todo momento é espectador de si mesmo, que presta excessiva atenção sobre suas reações. Isto se opõe à verdadeira consciência, porque ela, enquanto intencional, deve fixar-se totalmente no objeto que se apresenta, sem que se atenda para a própria atuação, de modo que há nisso um certo “esquecimento de si mesmo”. E só assim pode o homem estabelecer um contato real com as coisas e com seu logos objetivo.

Portanto, na direção intencional para o objeto, como é próprio da mente humana, a pessoa deve ter total atenção sobre ele, sem atender para a própria atuação, esquecendo de si.

Cristo, o Logos encarnado, diz: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).