A existência da verdade é uma certeza absoluta – relativizar a verdade é relativizar a falsidade e a mentira

A existência da verdade é uma certeza absoluta, algo inegável; é inescapável, porque é nela, a Verdade onipotente, que “vivemos, nos movemos e existimos”. O filósofo medieval e beato católico Duns Scoto diz: “a verdade é desse modo, porque se afirmas que há a verdade, então tens de afirmar que tal é verdadeiro, e assim há a verdade; se negas que há a verdade, então é verdadeira a verdade de que não há. E assim alguma verdade há”.

A noção de verdade á algo elementar e de máxima importância para a existência humana. Cristo mesmo disse que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade e que todo aquele que é da verdade ouve a sua voz. Falou também da antiga serpente como “o pai da mentira” e disse que o mundo, em certo sentido, está com o maligno. Relativizar a verdade, como se não houvesse verdades absolutas, é relativizar a falsidade e a mentira, consequentemente é relativizar a bondade e a maldade, é negação dos cosmos, da razão, e afirmação do caos, do sem sentido. Se não há a verdade, então não há a mentira nem a falsidade, e assim todas as afirmações sobre as realidades se equivalem, porque podem ser ao mesmo tempo verdadeiras ou falsas, contrário ao que a realidade mostra.

Sabemos a diferença entre o círculo e o quadrado e a diferença entre a luz do dia e a escuridão da noite, verdades absolutas no sentido de que sempre serão verdadeiras. Posso chamar a luz de trevas e as trevas de luz, porém as realidades assim nomeadas permanecem como são, não perdem nada de seu ser, em sua presença na Mente divina; quem perde é a mente humana que está contra a verdade, que é luz e bondade para sua alma.

Na negação da verdade não há inteligência e sim obscuridade da mente. Jamais pode ser admirado pela inteligência ou sabedoria alguém que nega que há a verdade, porque a negação da verdade é a negação da inteligência e da sabedoria.

Sobre São Paulo, o Papa Bento XVI certa vez disse: “Num mundo no qual a mentira é poderosa, a verdade paga-se com o sofrimento. Quem quer evitar o sofrimento, mantê-lo distante de si, mantém distante a própria vida e a sua grandeza; não pode ser servo da verdade nem pode servir a fé”.

Quando predomina a negação da verdade, os males se multiplicam.

“Como a inteligência é anterior à Escritura, é dela que provém a sabedoria necessária para sua compreensão”

Pode-se dizer que a Sagrada Escritura é a “Palavra de Deus em linguagem humana”. Nela há duas realidades distintas, uma infinita e outra finita, em certo modo de relação.  No salmo 32 é dito: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e pelo sopro de sua boca todo o seu exército (…). Porque ele disse e tudo foi feito, ele ordenou e tudo existiu”.

Por experiência, podemos dizer que a palavra humana possui um duplo aspecto: enquanto nome que diz o que é, que de certo modo aponta o ser, e enquanto instrumento de comunicação entre duas ou mais consciências, de comunhão entre múltiplas mentes. Consequentemente, a palavra humana, que significa a linguagem humana, supõe o ser e a consciência, de modo que sem o ser e a consciência não haveria linguagem. Na Palavra de Deus também há o ser e a consciência, porém não do mesmo modo, porque antes de tudo a Palavra de Deus é o próprio Ser, que é a própria Consciência Divina. Quer dizer, a Palavra de Deus não apenas diz a realidade, ela é a própria realidade. Por isto, o Logos Divino é o Verbo Divino, por meio do qual todas as coisas foram criadas e são conservadas no ser.

Assim, por sua relação com o ser e a consciência, a palavra-linguagem humana possui um grau de semelhança finita com a Palavra de Deus, assim como o ser humano, a humanidade, possui um grau de semelhança finita com o Ser Divino, a Divindade. Por isto, como revelação concedida pelo próprio Deus, é dito no livro de Gênesis: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Assim Deus o criou.

Deus Pai ensina a Santa Catarina de Sena seguinte: “Como a inteligência é anterior à Escritura, é dela que provém a sabedoria necessária para sua compreensão. Foi por tal modo que os santos profetas entenderam e falaram sobre a encarnação e morte de meu Filho; que os apóstolos  foram sobrenaturalmente iluminados com a vinda  do Espírito Santo em Pentecostes; que os evangelistas, doutores, confessores, virgens e mártires acolheram brilhante luz”.  

Deus conhece tudo o que se pode saber, nada se pode acrescentar ao que ele é, nem nada lhe tirar

Como é impossível que algo venha do nada, o ser eterno significa o ser em toda a sua plenitude, dado de uma só vez em toda a sua atualidade, com todas as possibilidades do ser nele contidas; é a simultaneidade absoluta, infinitamente além do tempo, que é apenas uma de suas possibilidades. Este ser é o próprio ser divino, o próprio Deus. Há um sentido em que podemos falar de possibilidades no ser de Deus e em outro não.

Podemos falar no sentido de que nada existe fora de Deus, de que Deus, o ser infinito, é aquele que tudo contém. Neste sentido, por exemplo, todas as criaturas possíveis e as realmente criadas estão em Deus, como possibilidades do ser, porém não como divinas, como se fossem por si mesmas portadoras da essência divina.

Por outro lado, não podemos falar de possibilidade em Deus no sentido de haver em Deus, como há no homem, uma mistura de atualidade e possibilidade, o que significaria que Deus não é tudo quanto pode ser. Isto é falso, porque Deus é em ato, em exercício, tudo quanto pode ser, de modo que Ele não pode crescer nem diminuir, não pode ser mais nem menos do que é, caso contrário não seria Deus: é por toda a eternidade imutavelmente o mesmo na plenitude de seu ser, é o Ato Puro.     

A plenitude do ser significa a plenitude do saber. Assim, além de ser em ato tudo quanto pode ser, Deus conhece tudo o que se pode saber, de um só vez, simultaneamente. É a Mente infinita onipotente, a Consciência onisciente que, com relação à sequência própria do tempo, é presciente.  

Neste sentido, no livro de Eclesiástico (42) é dito: “(…) Ele sonda o abismo e o coração humano, e penetra os seus pensamentos mais sutis, pois o Senhor conhece tudo o que se pode saber. Ele vê os sinais dos tempos futuros, anuncia o passado e o porvir, descobre os vestígios das coisas ocultas. Nenhum pensamento lhe escapa, nenhum fato se esconde a seus olhos. Ele enalteceu as maravilhas de sua sabedoria, ele é antes de todos os séculos e será eternamente. Nada se pode acrescentar ao que ele é, nem nada lhe tirar; não necessita do conselho de ninguém. Como são agradáveis as suas obras! E todavia delas não podemos ver mais que uma centelha”.

Deus é sempre Misericordioso e Justo: Ele não predestina ninguém à maldade-pecado

Na Sagrada Escritura, é dito no livro de Eclesiástico (33): “Foi assim que Deus tirou todos os homens do solo e da terra de que foi formado Adão. Em sua grande sabedoria, o Senhor os distinguiu, e diversificou os seus caminhos. (…) Diante do mal está o bem; diante da morte, a vida, assim também diante do justo está o pecador. Considera assim todas as obras do Altíssimo; estão sempre duas a duas, opostas uma à outra”.

Deus é sempre Misericordioso e Justo, não faz misericórdia sem justiça nem justiça sem misericórdia. Ele não predestina ninguém à maldade, ao pecado, o que seria contrário ao que Ele é realmente, uma contradição, uma negação de si mesmo, o que é impossível em Deus, perfeitíssimo de modo imutável, desde toda a eternidade. Para todos os homens seus caminhos são sempre caminhos na harmonia de sua misericórdia com sua justiça, sempre na pura Bondade que lhe é própria, um dos nomes de sua Essência Divina, sem nenhuma mancha de maldade. Deus, de Providência onipotente, sempre na luz de sua infinita Sabedoria, conduz a todos pelo caminho que devem seguir para alcançar a felicidade para a qual foram criados e são mantidos na existência no tempo da Misericórdia. É o homem, em sua liberdade, na possibilidade de dizer sim ou não com sua vontade, que escolhe não seguir o caminho traçado pelo Criador desde a eternidade, com Consciência onisciente; é o homem que, na tolice de sua soberba, sem reconhecer o nada de seu ser sem o Criador e a plenitude do ser Divino, prefere a si mesmo, prefere sua própria vontade à Vontade de Deus. Caminhos diferentes, por ser as coisas como elas são; assim como é próprio da árvore dar frutos, é próprio do caminho conduzir a algum lugar e é próprio de cominhos opostos levar a fins opostos. O fim que se opõe a Deus só pode ser maldade e infelicidade. “Pelos frutos conhecereis”.

“Não deram crédito à verdade, mas consentiram no mal”

É dito no salmo 77: “Escuta, ó meu povo, minha doutrina; às palavras de minha boca presta atenção”. Nem todas as palavras que saem de todas as bocas merecem consideração, porque nem todas são verdadeiras. Os homens podem enganar e se enganar, o contrário de Deus, que jamais se engana nem engana ninguém, Ele que é a Verdade puríssima, a Consciência onisciente.

As palavras ditas por Deus, transmitidas por seus eleitos de fato, instrumentos de sua Sabedoria onipotente, são sempre verdadeiras, cheias de instrução para o homem de mente finita, de consciência limitada. A história do profeta Jemerias contra Ananias é um exemplo disso: “E Jeremias acrescentou, ao dirigir-se ao profeta Ananias: “Ouve bem, Ananias! Não te outorgou missão o Senhor. És tu que arrastas o povo a crer na mentira. Por isso, eis o que disse o Senhor: Vou afastar-te da face da terra. Ainda neste ano morrerás, pois que insuflaste a revolta contra o Senhor!”. Nesse mesmo ano, no sétimo mês, pereceu o profeta Ananias”.

Para um homem o desinteresse pela verdade é um sinal negativo, o apego à opinião pessoal é sinal negativo, a imprudência no falar é sinal negativo. A devida estima pela verdade é tão importante que vale a salvação eterna em oposição à perdição eterna. Assim, em Tessalonicenses, ao instruir sobre os enganos do império do Anticristo, São Paulo fala daqueles “que se perdem, por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar. Por isso, Deus lhes permitirá um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro. Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas consentiram no mal”.

Quem ousaria supor?

“Quem ousaria supor que Tu, ó Deus infinito e eterno, me amaste há séculos, ou melhor dizendo, antes dos séculos? Tu, de fato, me amas desde o momento em que existes como Deus, em consequência, me amaste e me amarás sempre!… Mesmo que eu ainda não existisse, Tu já me amavas, e justamente pelo fato de me amares, ó bom Deus, me chamaste do nada à existência!…

Para mim criaste os céus repletos de estrelas, para mim criaste a terra, os mares, os montes, os rios e muitas, muitas coisas belas que existem sobre a terra…

Mas isto não basta: para mostrar-me de perto que me amas como muita ternura, desceste do céu, das mais puras delícias do Paraíso para esta terra enlameada e cheia de lágrimas, viveste no meio da pobreza, aos trabalhos e sofrimentos; e no fim, desprezado e escarnecido, quiseste ser suspenso dolorosamente num infame patíbulo em meio a dois ladrões… Ó Deus de amor, remiste-me desta forma terrível, mas generosa!

Quem ousaria supor?

Tu, porém, não te contentaste com isto, mas, ao ver que passariam dezenove séculos desde o momento em que se revelaram estas demonstrações do teu amor e eu aparecesse na terra, encontraste uma solução também para isto! O te Coração não permitiu que eu me nutrisse unicamente das lembranças do teu imenso amor. Permaneceste neste desprezível terra no santíssimo e admirável Sacramento do altar e agora vens a mim e te unes estreitamente comigo sob a forma de alimento… O teu Sangue já corre no meu sangue, a tua Alma, ó Deus encarnado, se compenetra com a minha alma, fortalecendo-a e alimentando-a.

Que milagres! Quem ousaria supor?

O que mais poderias dar-me, ó Deus, depois de já teres te oferecido a mim em propriedade?…

O teu Coração ardente de amor por mim, sugeriu-te ainda outro dom, sim, outro dom ainda!…

Tu nos mandaste que nos tornássemos como crianças, se quiséssemos entrar no reino dos céus {Mt 18,3}. Tu sabes muito bem que uma criança tem necessidade de uma mãe: Tu mesmo estabeleceste esta lei de amor. Portanto, a tua bondade e a tua misericórdia criaram para nós uma Mãe, que é a personificação da tua bondade e do teu amor infinitos, e da Cruz, sobreo Gólgota, a ofereceste a nós e nós a Ela… Além disso decidiste, ó Deus, que nos ama, constituí-la onipotente dispensadora e medianeira de todas as graças: Tu não negas nada a Ela, e Ela não é capaz de negar nada a ninguém…

Quem, portanto, poderá então perder-se? Quem não alcançará o Paraíso?

Provavelmente só um insensato, um teimoso abominador de si mesmo não quer consciente e voluntariamente salvar-se… e foge para longe da melhoro das mães e despreza sua mediação.

Olhamos cá e lá na terra. Quantas graças da Mãe Imaculada se registraram nos pergaminhos amarelados, nos toscos documentos em folha dos séculos passados e em inumeráveis montes de livros e folhetos!… E mais, quantos ainda nem sequer foram colocados por escrito, e não o serão jamais!

(…) Quem ainda não experimentou, que experimente! Veja, e se dê conta pessoalmente: perceberá quanto é poderosa e boa a Mãe de Deus e Mãe nossa.

De verdade, quem ousaria supor tudo isto, se não existisse a voz da fé e a clara experiência de cada dia?…”. (São Maximilano Kolbe, novembro de 1929. Do livro “Escritos de São Maximilano Kolbe”, pág. 1711).

Os triunfos de Cristo Rei e de sua Igreja Católica no Apocalipse de São João

“(…) Enquanto isso, quando o sétimo anjo tocou a trombeta, os problemas não surgiram imediatamente, como seria lógico esperar, mas grandes vozes se levantaram no céu dizendo: O reino deste mundo tornou-se de nosso Senhor e de seu Cristo, e Ele reinará para sempre, para todo o sempre. A estas vozes de exultação os vinte e quatro anciãos prostraram-se para adorar e agradecer a Deus que, fazendo uso do seu grande poder, começou a reinar. Adorando e dando graças, eles anunciaram o julgamento universal vindouro, e ao seu anúncio o Templo de Deus no Céu se abriu, e a Arca de sua aliança apareceu em seu Templo, e relâmpagos, gritos, um terremoto e muito granizo se seguiram.

O que tudo isso significa?

É uma confirmação dos dois períodos de triunfo de Deus e da Igreja, que acabamos de mencionar. Aqueles que sobreviveram à ruína da décima parte da cidade santa ficaram assustados e deram glória ao Deus do Céu. Portanto, após o triunfo das duas testemunhas, haverá um grande movimento de conversão a Deus, por parte dos homens que escaparam não só da ruína da cidade santa, mas dos flagelos da primeira e da segunda angústia. Este movimento de conversão não diz respeito ao fim do mundo, mas ao fim do sexto período da vida da Igreja; não segue o triunfo de Enoque e Elias, mas o triunfo das duas testemunhas que são as suas figuras, isto é, o Papa e o Rei do Amor.

No tempo em que Roma será pisoteada pelo povo perverso durante três anos e meio, eles realizarão o seu prodigioso apostolado; então eles serão derrotados pelos pervertidos e mortos, seja física ou moralmente, com sua degradação ordenada pelos próprios pervertidos. Por um milagre divino, depois de três dias e meio, seja tomado literalmente, ou por um curto período (…) elas ressuscitarão para a vida e para a sua dignidade; à vida, se forem realmente mortos, à sua dignidade e prestígio, se apenas forem mortos e excluídos.

Um flagelo de Deus, particular da cidade santa, onde será cometido o crime da luta contra as duas testemunhas, abalará as almas desencaminhadas pela apostasia, e elas, assustadas com o castigo, darão glória ao Deus do Céu, reconhecendo-o e convertendo-se a Ele.

Enquanto isso, o sétimo Anjo começará a tocar a trombeta, ou seja, terá início o sétimo período da vida da Igreja. O triunfo das duas testemunhas e a conversão do povo ao Senhor será o fim do sexto período e o início do sétimo, e por isso, em vez de seguir imediatamente à terceira dificuldade, virão os aplausos de gratidão do Céu pelo primeiro triunfo de Deus e da Igreja na terra: O reino deste mundo tornou-se de nosso Senhor e seu Cristo.

Este reino de amor virá preparar as almas para a última grande luta que a Igreja terá contra o anticristo no sétimo período de sua vida, e por isso os vinte e quatro anciãos, agradecendo a Deus pelo primeiro triunfo, e vendo longe a apostasia final das nações iradas contra Deus, anunciam também a ressurreição dos mortos, o julgamento universal e o aparecimento da Arca de Deus no Templo da sua glória, isto é, da gloriosa Humanidade do Redentor, entre raios, gritos, terremoto e muito granizo, isto é, entre as convulsões da terra.

Esta série de acontecimentos tão complexos e, ao mesmo tempo, tão lógicos, ordenados e claros, faz-nos compreender mais uma vez quão misterioso é falar de Deus, que tem tudo presente, e só pode falar como Aquele que tem tudo presente. Nós, pequenos átomos, não podemos fazer outra coisa diante Dele, a eterna Trindade, Poder, Sabedoria e Amor, senão adorar, agradecer e rezar. Em meio aos séculos flutuantes, somos como uma pequena palha varrida pelas ondas do oceano tumultuado, e como podemos presumir elevar-nos a juízes de Deus?

Humilhemo-nos, humilhemo-nos e valorizemos a pequena partícula de tempo que nos é concedida para fazer o bem. Somos como um átomo de uma imensa montanha, uma célula de uma árvore colossal, e não podemos avaliar, muito menos criticar, as razões profundas pelas quais Deus quer ou permite tantos acontecimentos na vida dos séculos e na da Igreja.” (Comentários sobre o livro do Apocalipse, de Dolindo Ruotolo, sacerdote e místico católico, italiano, séc. XX).

A penitência

“A penitência é necessária?

Jesus acentuou com clareza a necessidade da penitência e a Imaculada mostrou a Bernadete que um de seus desejos a ser proclamado aos demais é a penitência.

Como fazer penitência?

A saúde e as obrigações do próprio estado não permitem a todos o rigor da penitência, embora todos reconheçam que o trajeto da própria vida esta cheio de pequenas cruzes. A aceitação destas cruzes em espírito de penitência: eis um vasto campo para o exercício da penitência.

Além disso, o cumprimento dos próprios deveres, o cumprimento da Vontade de Deus em todos os momentos da vida, um cumprimento perfeito das ações, palavras e pensamentos, exige em muitas ocasiões a renúncia ao que poderia parecer-nos mais agradável num determinado momento: esta é uma fonte copiosíssima de penitência.

Jesus, porém, nos exorta a não ficarmos tristes as fazer penitência, mas que a penitência brote do amor. Uma alma que ama a Deus deseja-lhe dar prazer sempre, em cada momento, com cada pensamento, palavra, ação, com toda a sua atividade e com toda a sua própria existência. Quando, então, acontecer que deva sacrificar algum afeto para alegar a Deus, considere-se feliz, já que tem a possibilidade de dar uma prova de amor desinteressado. Por isso é que os santos desejam muito os sacrifícios, as cruzes, precisamente porque eles testemunham que seu amor era puro; ou melhor, purificavam seu amor a extirpavam os afetos contrários a este amor.

Por isso, todos podemos fazer penitência, sem considerar as condições de saúde, o tipo de trabalho e as obrigações do próprio estado; isto é, podemos fazer penitência a cada instante da vida, e fazê-la por amor.” (de São Maximilano Kolbe, em 1940. Retirado do livro “Escritos de São Maximiliano Kolbe”, Editora Paulus. ).

O Soberano da história é Deus, sempre misericordioso na justiça e justo na misericórdia

Desde o início dos tempos até o fim do mundo, depois do qual virão novos céus e nova terra, o homem está entre a Misericórdia Divina e a Justiça Divina, perfeitamente harmônicas entre si, e que de fato decidem os rumos da história humana, sem aniquilar a liberdade de cada homem, que nisso pode ser julgado pela bondade ou maldade de seus atos. Deus é sempre, desde a eternidade, o Soberano da história, de todo o Cosmos, de todo o universo; e jamais os demônios ou os homens.

Deus é Misericordioso e Justo de modo perfeito, e Ele em nada nega a si mesmo, portanto em seus atos jamais nega sua misericórdia e sua justiça. Assim, com perfeita harmonia, Deus é sempre misericordioso na justiça e justo na misericórdia. Por exemplo, é certo que na salvação conquistada por Cristo não há nenhum mérito do homem pecador. Deus pagou misericordiosamente o que somente Deus poderia pagar; e por isto houve a encarnação da Pessoa do Filho Eterno, Um com o Pai e o Espírito Santo – A Trindade Santíssima, a insondável vida interior do único Deus. Isto é pura misericórdia. Porém, nesta misericórdia, que abriu a porta do Céu eterno, que é a participação na vida divina por toda a eternidade, nem todos possuem a mesma grandeza, nem todos possuem a mesma riqueza, embora todos sejam ricos, isto é, todos são felizes de modo abundante. Neste sentido Cristo fala do “menor no Reino dos Céus” e de “acumular tesouros no Reino dos Céus”.

Aqueles que corresponderam mais à graça divina, que com suas boas obras acumulam mais tesouros no Céu, são mais ricos no reino dos Céus. Como se assemelharam mais a Cristo neste mundo, sobretudo pelas virtudes provadas nos sofrimentos e adversidades, serão mais semelhantes a Ele no Céu, estarão mais próximos de trono glorioso. Por sua incomparável semelhança com o homem-Deus, nascido de seu ventre puríssimo, Maria Santíssima possui o maior dos tronos celestes abaixo do trono de Cristo Rei; ela foi coroada por Deus como Rainha do céu e da terra, de todas as criaturas. Em seu Diário, Santo Faustina relata a seguinte visão: “Hoje, estive no céu em espírito, e vi suas belezas incomparáveis e a felicidade que nos espera para depois da morte (…). Deus em sua grande majestade, é adorado pelos espíritos celestiais, de acordo a seus graus de graças e hierarquias em que são divididas…”.

“Sabei que a vontade de Deus é o único caminho para agradar-Lhe”

A história do homem em parte importante é a história da luta da falsidade contra a verdade, do vício contra a virtude. Quanto à criatura humana, o antagonista da serpente diabólica, o “pai da mentira”, é o Espírito Santo, o Espírito da Verdade e das virtudes, que de diversos modos exerce este seu antagonismo, por exemplo mediante homens que são instrumentos de sua ação onipotente, como os verdadeiros profetas e sábios.  Como esposa mística do Espírito Santo, antagonista do espírito imundo é também Maria, a Imaculada, aquela que em sua grandiosa humildade, “do começo ao fim, nunca quis nada a não ser o que o Divino Criador quis”, e assim se opõe à soberba da serpente enganadora.

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“Nossa Senhora à alma: Satanás se precipitou imediatamente ao concentrar-se em si mesmo… Ele se tornou forçosamente tenebroso e foi, por isso, repelido por Deus. A sua vida poderosa ficou, então, totalmente presa em si mesma, sem circulação, sem possibilidade de expansão. Iniciou-se nele aquela eterna agitação que é o fogo que o devora e se precipita nas trevas eternas. Por isso, é chamado pai do orgulho e da mentira! Satanás representa a criatura totalmente cheia de si mesma, toda esvaziada de Deus, eternamente infeliz. Por isso, ele tenta arruinar-vos, enchendo-vos de vós mesmos. Por isso, a humildade o desconcerta, e por isso eu pude pisar a sua cabeça; por ser a criatura mais humilde, a criatura que mais lhe causa terror! O demônio tenta sempre com o orgulho… A inveja e o orgulho são do demônio… Tudo é orgulho; também a avareza, a falsa piedade, a falsa humildade.

Quando o demônio não consegue entrar em vós de um modo direto, começa a vos agitar, concentrando-vos sobre vós mesmos com preocupações. Não vos concentreis jamais em vós mesmos! Sabei que a vontade de Deus é o único caminho para agradar-Lhe. Lançai-vos na vontade de Deus, mesmo quando não sabeis fazer nada; abandonai-vos Nele e no sentimento do vosso nada, e tereis vencido a luta contra o demônio! Quando fui concebida Imaculada, foi ordenada inteiramente a Deus, pertencendo totalmente a Deus e à Sua vontade. O demônio não pôde manchar-me porque, quando minha alma foi unida ao corpo, eu estava já inteiramente na vontade de Deus, eleita para ser Mãe do Verbo de Deus, inteiramente vazia de mim mesma. Por isso, esvaziai-vos em Deus!” (Dolindo Ruotolo, sacerdote e místico católico, Itália, século XX)