“O caminho de toda vida boa e feliz é encontrado na verdadeira religião”

A verdade não pode contradizer a verdade, não pode negar a si mesma, e só é negada pela falsidade, sua inimiga mortal nas criaturas espirituais.

Contrário ao relativismo religioso, uma tolice sem verdadeira bondade, a noção de verdadeira religião faz todo sentido, porque ao homem é apresentado inúmeras religiões contraditórias entre si, que por esta razão não podem ser todas verdadeiras. Alguém pode até dizer hipoteticamente que todas as religiões são falsas, no que o ateísmo-materialismo estaria certo, porém não pode dizer, nem hipoteticamente, que todas as religiões são verdadeiras, porque as negações essenciais que há entre elas torna isto impossível, portanto um absurdo, algo contrário à razão, que não merece aceitação e sim negação.

Além disso, a experiência mostra que há verdade e falsidade, que nem tudo que está na mente humana é necessariamente verdadeiro ou falso. Se humanamente há falsidade possível quanto a qualquer coisa, há também quanto à religião.

O Deus vivo e verdadeiro é a eterna e puríssima Verdade. Toda verdade o glorifica e toda falsidade o ofende, e as misturas de verdades com falsidades não lhe pertencem. Assim, não sem razão o profeta Elias e o Apóstolo São Paulo, dois instrumentos da Sabedoria Divina, em suas épocas combateram falsas religiões, inimigas da Religião revelada, assim como combateriam virtuosamente o relativismo religioso, um importante engano que engana, uma importante perversão que perverte.

Santo Agostinho diz: “O caminho de toda vida boa e feliz é encontrado na verdadeira religião. Por ela, é adorado o único Deus, com piedade muito pura. E é ele reconhecido como princípio de todos os seres, origem, aperfeiçoamento e coesão de todo o universo” (no livro “A Verdadeira Religião”, por volta de 390 d.C).

Antes de tudo, deverás formar de Deus uma ideia altíssima, piedosíssima e santíssima

O modo como alguns falam da Misericórdia significa uma abolição da Justiça Divina, consequentemente é um engano sobre o ser de Deus, porque Deus é essencialmente justo e imutável em sua essência divina eterna. Nele há sempre justiça na misericórdia e misericórdia na justiça, com permanente harmonia entre elas, própria de seu ser perfeitíssimo.

Qualquer falsidade, enquanto oposta à verdade, é negativa. Porém, quanto mais importante é a realidade, mais importante é a falsidade e a verdade. Assim, como Deus é a Realidade mais importante, o Ser Supremo, as falsidades a seu respeito são de máxima importância negativa. As falsidades, os enganos, a respeito da Misericórdia e da Justiça divinas possuem elevada importância maléfica, com potencial dano eterno para as almas, e por isto devem ser evitados e tratados com máxima prudência. Em sua carta, São Tiago diz: “Meus irmãos, não haja muitos entre vós a se arvorar em mestres; sabeis que seremos julgados mais severamente, porque todos nós caímos em muitos pontos. Se alguém não cair por palavra, este é um homem perfeito, capaz de refrear todo o seu corpo”.

Ensina São Boaventura: “1. Antes de tudo, minha alma, deverás formar de Deus uma ideia altíssima, piedosíssima e santíssima. Consegui-lo-ás por meio de uma fé inabalável, de meditação atenta e lúcida intuição, repassada de admiração. 2. Será altíssima a ideia que fazes de Deus se fiel, piedosa e perspicazmente creres, admirares e louvares seu imenso poder que do nada criou tudo e tudo sustenta; sua infinita sabedoria que tudo governa e dispõe; sua ilimitada justiça que tudo julga e recompensa (…) Será piedosíssima a ideia que formas de Deus se admirares, abraçares e bendizeres a sua imensa misericórdia, que se mostrou sumamente benigna em tomar a nossa natureza humana e nossa mortalidade; sumamente terna em suportar a cruz e a morte; sumamente liberal em mandar o Espírito Santo e instituir os sacramentos, máxime comunicando-se-nos a si mesmo liberalissimamente no sacramento do altar, para que possas cantar as palavras do salmo: Suave é o Senhor para todos, e as suas misericórdias estendem-se sobre todas as suas obras.”

Deus nos chama à penitência

 “O anúncio das grandes tribulações que atingirão a terra antes do julgamento universal deve nos fazer pensar seriamente no julgamento de Deus na nossa vida mortal. Sete taças são derramadas sobre a terra como sete libações de sacrifício expiatório, para reparar os danos causados ​​ao Senhor com os sete pecados mortais nas sete eras da vida da Igreja. Estas taças misteriosas de flagelos reparadores também são derramadas em nosso caminho mortal pelos pecados dos quais somos culpados. Ninguém se ilude pensando que fará o mal e ficará impune, ou, pior, que fará o mal e prosperará. Tudo está pago, inexoravelmente pago, e podemos dizer com verdade que para cada um dos nossos pecados há uma taça de amargura e de angústia que nos faz pagar por isso.

Enquanto durar o tempo da misericórdia, há também almas generosas que se sacrificam como vítimas, bebem dos tesouros da Redenção e pagam por nós; mas há também um momento de justiça inexorável nas nossas vidas, em que as dívidas contraídas expiram e devemos pagá-las a todo custo. Quem será tão tolo a ponto de querer comprar um miserável prazer dos sentidos com o altíssimo preço de úlceras, angústias mortais, infortúnios e dores de toda espécie? E quem será tão desumano e cruel a ponto de causar problemas semelhantes a outros e contribuir para os infortúnios que afligem a humanidade pobre e desolada? Na verdade, estamos na terra como uma família, e o dano que cada um de nós causa torna-se o dano de toda a família humana. Que pelo menos este pensamento de humanidade e de caridade nos abale e nos faça tremer sobre as nossas responsabilidades. (…)

Quantas taças de amargura são derramadas em nossas vidas pelas nossas iniquidades, e nós, em vez de reconhecer nelas a voz da justiça de Deus, continuamos em nossos maus caminhos, aliás muitas vezes nos tornamos piores invocando sobre nós mesmos flagelos mais graves! Humilhemo-nos profundamente, rezemos, façamos as pazes e, lançando-nos nos braços da misericórdia divina que está sempre pronta a nos acolher, choremos as nossas faltas e aceitemos as próprias dores da vida como reparação. O Senhor, apresentando-nos os males que atingirão a terra nos últimos tempos, chama-nos precisamente ao sentimento das nossas responsabilidades e nos sacode para que nos empenhemos contra os nossos pecados.

Deve-se notar que os flagelos que atingem a humanidade nos últimos tempos têm um caráter mais claramente sobrenatural, para não dar aos homens o direito de se iludir, dando-lhes uma explicação puramente natural. A úlcera atinge apenas aqueles que têm o caráter da besta ou que adoram a sua imagem; portanto, não pode ser trocada por uma epidemia comum. O mar, que sempre tem água pura e incorrupta, não poderia transformar-se subitamente em sangue cadavérico. Os rios e fontes brilham vermelhos como sangue vivo, sem uma possível explicação natural. O sol, que segundo todos os cientistas está em fase de resfriamento, aumenta seu calor até queimar. O trono do anticristo, que parecia firme e inabalável, vacila subitamente sob a grave ameaça da incursão amarela, que é pavimentada pela repentina seca do Eufrates. Finalmente, as convulsões atmosféricas, as tempestades assustadoras que as seguem, os terremotos e o granizo têm um caráter que exclui qualquer explicação natural.

O Senhor chama assim a humanidade à penitência e quer fazer-se reconhecer para que se possa corrigir. Não esperamos que Deus nos chame com castigos prodigiosos para nos corrigir, mas reconhecemos a sua voz em cada infortúnio e aproveitamos cada dor para fazer penitência pelos nossos pecados. A penitência não é uma desgraça, tem um caráter doce, porque é sempre um regresso filial aos braços adoráveis ​​de Deus. Respondamos, portanto, ao seu convite e, batendo no peito, peçamos-lhe perdão com profunda humilhação.” (Dolindo Ruotolo, sacerdote e místico católico, séc. XX)

Não há um “deus bom” e um “deus mau”, apenas o Sumo Bem, a plenitude da Bondade, primeiro princípio de todas as coisas

Deus, por ser o que é, enquanto Ser Supremo, Ser Absoluto, Ser Eterno, não possui um ser contrário, como se houvesse “outro deus”, portanto dois deuses, um bom e outro mau. Deus não possui rival, não divide seu trono com ninguém. Não há um não ser supremo, um não ser absoluto, um não ser eterno, porque são noções sem sentido, como quadrado-redondo ou madeira de ferro. O ser contingente, relativo, como a saúde e a vida, admite um contrário; o ser relativo admite o não ser relativo, a bondade relativa admite a maldade relativa. Assim, a saúde admite doença e a vida humana a morte.

A maldade supõe a bondade assim como o não ser supõe o ser. Quer dizer, não há maldade sem bondade e não há não ser sem o ser. Como a maldade e o não-ser são negações, são sempre negações de algo que lhes antecedem. Por isto, é necessário haver antes a bondade e o ser, que são sempre os primeiros. Só a bondade pode ser absoluta, jamais a maldade, assim como apenas o ser pode ser absoluto, jamais o não-ser; e isto em qualquer sentido razoável em que o mal pode ser dito.

Os ateus que se valem da existência do mal como razão para negar a existência de Deus, supõem saber o que é o mau e que ele de fato existe. Porém, sem bondade intrínseca não faz sentido falar em mau objetivo; e a bondade intrínseca supõe uma série de realidades, que são sem sentido ou negadas na cosmovisão ateísta. Por exemplo, bondade intrínseca significa verdade eterna, aquilo que vale e permanece sempre, transcendente à matéria mutável e ao tempo passageiro. Assim, até a existência do mal fala de Deus em vez de negá-lo.

Só há um princípio para todas as coisas: é Deus, a plenitude da Bondade, o Sumo Bem, Alfo e Ômega, que governa sobre todas as coisas como único soberano, inclusive sobre o mal. Diz Salomão no livro da Sabedoria: “É ela, com efeito, mais bela que o sol e ultrapassa o conjunto dos astros. Comparada à luz, ela se sobreleva, porque à luz sucede a noite, enquanto que, contra a sabedoria, o mal não prevalece”.

Cristo é a Verdade vivente e onipotente que se fez homem por amor ao homem

Cristo é a Verdade vivente e onipotente que se fez homem por amor ao homem, no interesse de sua salvação eterna, felicidade sem fim, na luz da verdade cheia de delícias. Por ser o que é, Cristo fazia o que ensinava e ensinava o que fazia. Nele o ser, a vida e as palavras não estão dissociados, e sim em plena harmonia. Como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ele é o supremo modelo, ensinado pela Sabedoria Divina para frutuosa imitação. Tudo que se opõe a ele significa falsidade e maldade e tudo que se conforma a ele significa verdade e bondade.

Os mestres da lei e os fariseus se comportavam em oposição a Cristo, sem razão, movidos pelo espírito da falsidade e não pelo Espírito da Verdade, o qual exclui qualquer contradição, pois é próprio da verdade a unidade e a harmonia. Assim, por exemplo, Deus é Uno e Trino, quer dizer, é Um na essência, na substância, na natureza, e Três nas Pessoas – a vida interior do único e verdadeiro Deus. No sentido em que só pode ser um, falar em três deuses é sem sentido, algo contra a razão, contra a realidade. A verdadeira religião, enquanto religião de verdades, não se opõe à realidade e sim o contrário.      

Resistentes ao Espírito da Verdade, os israelitas negaram o verdadeiro Messias e se tornaram inimigos do Evangelho que o próprio Deus para eles enviou, o que era motivo de lamento para São Paulo Apóstolo: “Tenho no coração uma grande tristeza e uma dor contínua, a ponto de desejar ser eu mesmo segregado por Cristo em favor de meus irmãos, os de minha raça”.

Se Deus é a Verdade, então, como parte importante do primeiro mandamento, amar a verdade sobre todas as coisas é um dos preceitos da lei de Deus. No salmo 147 o salmista diz: “Anuncia a Jacó sua palavra, seus preceitos, suas leis a Israel. Nenhum povo recebeu tanto carinho, a nenhum outro revelou os seus preceitos”.

A Verdade é onipotente, domina sobre todas as coisas como único Rei, tem sempre a última palavra, é um Espírito vivo cheio de poder, que cuida, com a bondade que lhe é própria, daqueles que trilham seu caminho nesse mundo envolto por trevas, destinado à ruina, por decisão da Justiça divina. Quem se abrigou na Misericórdia divina, não perecerá.  

“Imperialismos”: Providência Divina na história da Igreja Católica

“Nas duas terríveis guerras mundiais de 1914-18 e 1939-44, o imperialismo ambicioso inundou duas vezes a terra com sangue, e especialmente a segunda vez, impulsionado pelos objetivos altamente ambiciosos de dois homens que tinham a sua parte em comum: sair para guerra com todos e contra todos, para vencer e estabelecer um império esmagadoramente poderoso que domine todas as nações.

O império e a sede de império não são uma grandeza para uma nação, é o seu flagelo e a sua morte.

É uma elefantíase, um inchaço maligno que destrói os recursos da vida nacional, reduz os subjugadores e os vencidos à escravidão e força as nações a um estado de guerra perene, aberta ou oculta, que acaba por exauri-las e destrui-las no inevitável reacção que o imperialismo suscita nas nações e nos impérios conquistados. Deus deu a cada nação as suas fronteiras e os seus limites: os maiores, pela lei da ordem e da caridade, devem apoiar os mais pequenos, cada um deve gozar da sua independência e deve preocupar-se com o bem dos outros, para que a partir da harmonia de todos possam a paz ser preservada no mundo.

Esta é a lei estabelecida por Deus.

O pecado destrói a harmonia desta lei; para isso, por assim dizer, cessa a circulação no grande organismo das nações, ocorre a congestão naqueles que têm mais abundância de meios, e aqui está o imperialismo, chocante e arrogante que é um castigo para si mesmo e um castigo para outras nações. É uma verdade que não precisa ser ilustrada; vivemos e ainda vivemos [Don Dolindo escreveu estas páginas na primeira metade da década de 1940; Ed.]. As terríveis crises do imperialismo servem ao Senhor para preparar o seu império de amor na Igreja e para a Igreja; fecham um período de relaxamento e abrem outro de maior fervor, para alguma manifestação particular de sua infinita caridade.

Cada época da vida da Igreja começa e termina com este flagelo, como se manifesta na história. O imperialismo romano, por exemplo, preparou o caminho para a sua propagação pelo mundo, testou-o e purificou-o com perseguições, eliminando qualquer infiltração pagã da sua estrutura, e foi a verdadeira causa do colapso da grande máquina do próprio império.

O imperialismo muçulmano cumpriu a mesma função; como o romano , também tinha um arco, ou seja, tinha permissão para lutar e conquistar, espalhava o massacre entre as nações, e era um castigo e uma purificação para os fiéis, já relaxados em suas vidas. Nestes grandes cataclismos Deus recolhe amorosamente os seus escolhidos, como o dono do campo recolhe os bons frutos que a tempestade arranca da árvore; não nos damos conta disso, mas na eternidade veremos aqueles marcados pelo seu amor, e compreenderemos que sem as atribulantes tempestades eles nunca teriam sido salvos. Deus sabe o que faz e não devemos ser nós a sugerir a um Amor infinito como governar o mundo e conduzir as almas à salvação”. (Dolindo Ruotolo, sacerdote e místico católico, séc. XX)

“A mulher vestida de sol” (I)

“A medalha milagrosa, Lourdes, Fátima, mostraram às almas a grande maravilha de Deus, Maria Santíssima. Imaculada, a mulher vestida de sol e coroada de estrelas por excelência. O dia de Deus avança a passos largos, mas o amanhecer deste dia, embora tenha áreas de luz, também tem áreas de escuridão, assim como o amanhecer do dia terreno.

Você não acredita, diz São Bernardo, que Maria é a mulher vestida de sol? Ela está vestida de sol porque penetrou no abismo muito profundo da Sabedoria divina, além de toda imaginação. Os profetas foram simplesmente purificados nos lábios pelo fogo celestial, mas Maria merecia ser envolvida por todos os lados e como que fechada. É uma grande maravilha, porque, como diz São Boaventura, é aquela que maior Deus não poderia ter criado. Ele poderia ter feito um mundo maior, um céu maior, mas não poderia ter feito uma mãe maior que a Mãe de Deus. É esta maternidade divina que a cobre de sol, e por isso São Bernardo voltou-se para a Santíssima Virgem e exclamou: Jesus Cristo, que é o sol, permanece em você, e você nele. Você o veste e é vestido por Ele. Você o veste com a substância da carne, e Ele o veste com a glória de Sua majestade. Você veste o sol com a nuvem e você mesma é vestida pelo sol.

Santa Maria. Ela tem a lua sob seus pés porque é a governante dos tempos, e todas as épocas a chamam de bem-aventurada; é coroada de estrelas porque brilha com as graças dos Anjos, Apóstolos e Santos no mais alto grau, e é completamente iluminada por privilégios e virtudes incomparáveis. A fé, a esperança, a caridade, a religião, a humildade, a virgindade, a fortaleza, a pobreza, a caridade fraterna, a obediência, a misericórdia e a modéstia resplandecem nela, e ela brilha, como diz São Bernardo, na sua imaculada concepção, na saudação angélica, na infusão do Espírito Santo, na maternidade divina, na virgindade incomparável, na fertilidade sem corrupção, na gravidez divina sem nenhum fardo, no parto sem dor, na mais doce modéstia, na mais devotada humildade, na grandeza da fé, no martírio do coração.

(…)

Esta sublime maternidade de Maria afirma-se sobretudo quando o dragão infernal remove com a sua cauda a terça parte das estrelas do céu, isto é, quando com as suas armadilhas desorienta aqueles que devem ensinar a verdade na Igreja e devem brilhar no seu céu como estrelas que orientam o caminho das almas”. (escrito por Dolindo Ruotolo, sacerdote e místico católico, italiano, séc. XX)

Deus não está longe de cada um de nós: nele vivemos, nos movemos e existimos!

Deus é puro ser, porque nele não há nada de não ser. É o primeiro ser, o primeiro princípio, porque não há ser anterior a ele e todo ser provém dele. É ato puro, porque nele não há mistura de ato e potência, um modo de imperfeição. É eterno, porque permanece sempre, existe sempre, sem princípio nem fim. É imutável em sua essência divina, permanece sempre o mesmo na plenitude das perfeições altíssimas do ser, sem possibilidade de mudança. É infinito, porque não é limitado por nada que lhe seja exterior e não possui limites no ser. É absoluto, porque não depende de nada e tudo o mais depende dele. É necessário, porque não poderia não ser e não pode deixar de ser, pela impossibilidade absoluta do nada total. É onipotente, porque a plenitude do ser significa necessariamente a plenitude do poder, de tal modo que possui potência ativa para realizar tudo o que, na infinitude do ser, pode ser realizado. É onisciente, porque a plenitude do ser significa necessariamente a plenitude da consciência, de tal modo que Ele conhece totalmente e intimamente tudo o que pode ser conhecido na totalidade infinita do ser. É a própria bondade e verdade, porque bondade e verdade são como que dois nomes para o ser, em certo sentido coincidem com o ser, como duas faces da mesma moeda. É justo, porque avalia a bondade e a maldade dos atos livres de suas criaturas e diz a justa sentença com a merecida recompensa ou pena. É misericordioso, porque concedeu o ser às suas criaturas inteligentes, elas que dele recebem a existência a todo instante, e em Cristo providenciou gratuitamente, com imenso amor, a salvação eterna, o que significa, para aqueles que de fato querem, participar em certo grau do ser glorioso e da felicidade divina por toda a eternidade.    

Deus tudo contém e por nada é contido. Antes de tudo, Ele é a realidade em que o homem está, e não o universo material perecível. Assim, São Paulo Apóstolo ensina: “De um só homem ele fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, tendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites de sua habitação. Assim fez, para que buscassem a Deus e para ver se o descobririam, ainda que às apalpadelas. Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como disseram alguns dentre vossos poetas: ‘Somos da raça do próprio Deus’”.

Mistérios do ser de Deus, mistérios do Divino Amor

Em sentido elevadíssimo, Deus é necessariamente Uno, a Unidade perfeitíssima. Porque é impossível haver vários deuses, o politeísmo é falso. A verdadeira religião é necessariamente monoteísta, e por isto Deus, que é a Verdade Vivente, a Sabedoria Eterna, ensina no primeiro mandamento: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, dessa casa da escravidão. Não terás outros deuses perante Mim”.  

Porém, corretamente compreendido, há o múltiplo em Deus, sem negação da Unidade de sua essência, natureza ou substância, que é sempre Una, sem possibilidade de mudança, pois Deus é eternamente imutável. Como revelado por Cristo, o verdadeiro Deus é Uno e Trino. Um na Essência e três nas Pessoas. A Trindade Santíssima é como que a vida interior do Deus infinito. No Evangelho escrito, São João ensina: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito… E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai…”.

Há em Deus o Pai e o Filho. O Filho é Deus, distinto do Pai em algo, mas totalmente divino como Ele, pois possuem a mesma natureza divina. Por isto, é dito duas Pessoas Divinas e não duas naturezas divinas, o que é impossível. A terceira Pessoa Divina é o Espírito Santo, o Amor que une o Pai e o Filho. Assim, como Cristo ensinou aos seus Apóstolos, o batismo, ato sagrado no qual se recebe a vida divina, deve ser feito em nome de Deus, ou: “em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”.    

Cristo é o Verbo Divino encarnado, o que significa que ele é Deus-homem. Nele há a natureza divina e a natureza humana com o que é próprio de cada uma, exceto o pecado. O Cristo que nasce, sofre e ressuscita é o homem que nasce, sofre e ressuscita. O Cristo que cura, que diz ser Um com o Pai, que diz “antes que Abraão existisse, Eu sou” e que diz que somente ele conhece o Pai, é o Deus que ensina algo de si mesmo.

Se Cristo é Deus e se a Sagrada Eucaristia é o Cristo, como ele mesmo diz nas Escrituras, então adorar – e receber – a Sagrada Eucaristia é adorar a Cristo, que é adorar a Deus.

Mistérios do ser de Deus, mistérios do Divino Amor.

O caminho e a porta do céu: Falsos profetas e falsa religião

“Os ensinamentos que Jesus Cristo dá podem parecer árduos à natureza, desorientada pelas paixões; mas Ele não nos engana com perspectivas de felicidade efêmera, não nos engana porque é a Verdade mesma, e nos indica claramente a porta e o caminho para o céu, dizendo: Entra pela porta estreita, porque largo é o caminho e a porta que leva à perdição, e muitos são os que entram por ela. Quão estreita é a porta e estreito o caminho que conduz à vida, e quão poucos são os que a encontram!

Os enganadores e desordeiros da pobre humanidade apresentam-se com programas retumbantes de bem-estar material ou de bem-estar espiritual ilusório, e levam à morte. Jesus Cristo nos diz a verdade claramente e nos conduz à vida.

O caminho e a porta estreita que ele nos indica são tais diante do mundo, mas diante de Deus estão cheios de paz e de graças inefáveis. Uma doçura suave emana das próprias palavras do Evangelho, e aquele caminho parece quase um caminho solitário de montanha, que na sua própria dureza é cheio de atrativos. A vida é uma prova e é lógico que seja dolorosa; mas na mesma dor é doce quando olhamos apenas para Deus, porque é precisamente a dor que nos dá a liberdade do espírito, libertando-nos de todos os vínculos terrenos, e empurra-nos para Deus com maior ardor. Jesus alerta-nos, portanto, contra os falsos profetas, que se fazem passar por cordeiros de paz e de bem, pregam o bem-estar e são lobos vorazes, que arrancam as almas do Senhor e da verdadeira felicidade. Esses falsos profetas são os desordeiros do povo e os hereges; alguns enganam prometendo a satisfação brutal das paixões e materializando a vida, outros enganam fingindo piedade e religião e abrindo um caminho para o espírito, que parece mais confortável, mas ao contrário leva à morte eterna.

Os hereges e especialmente os protestantes pertencem a esta categoria; os maçons, os sectários e especialmente os bestiais comunistas pertencem ao outro.

Jesus Cristo nos dá o critério infalível para conhecê-los, dizendo-nos que os frutos que produzem os manifestam. As seitas têm um legado muito triste de iniquidades, abusos, crimes e degradações assustadoras; os hereges, ao mesmo tempo que pretendem pregar a virtude e a fé, devastam as consciências e reduzem as almas a um monte de ruínas. Basta ver o estado de corrupção em que caíram as nações protestantes para nos convencer disso. Pode-se dizer sem exagero porque é um fato histórico inegável que toda a apostasia moderna de Deus se deve ao protestantismo, que degenerou primeiro em racionalismo e depois em ateísmo. Se a Rússia se tornou o triste foco da barbárie comunista, isto deve-se à sua longa divisão da Igreja Católica. Onde há falsos profetas, há morte com todas as suas consequências corruptoras.

O que importa se eles fingem piedade e se iludem pensando que a têm? Não é a aparência que é válida diante de Deus; nem dizer: Senhor, Senhor, e depois fazer a própria vontade, o que pode levar à entrada no reino dos céus. A característica dos hereges não poderia ser mais precisa: dizem Senhor, Senhor, com as aparências de sua piedade, e também se vangloriam de profetizar em nome de Deus, ou seja, de anunciar e propagar as palavras da Bíblia; eles acreditam que são os propagadores do reino de Deus e os inimigos de Satanás, embora, dolorosamente, sejam seus amigos e coadjutores; rejeitam os milagres da Igreja e acreditam na sua própria tolice, especialmente em reuniões de algumas seitas, como as dos pentecostais, nas quais as convulsões epilépticas e as intoxicações da imaginação os fazem acreditar que estão renovando o milagre de Pentecostes. Jesus Cristo não deixa espaço para mal-entendidos, ele afirma solenemente que tais pessoas são tão estranhas para Ele, que Ele não as conhece, e protestará contra elas no dia do julgamento.

Os falsos profetas são também aqueles que se revestem de piedade e depois falham nos seus deveres, contentando-se com uma devoção superficial, toda baseada na aparência e vazia de substância. Estas almas são como terras abandonadas que produzem flores silvestres e produzem apenas palha estéril.

O cristão deve ser integral e conforme a totalidade; deve educar-se na fé e viver à luz infalível da Igreja Católica, Apostólica, Romana; deve aderir à vida da Igreja para unir-se a Jesus Cristo, deve ter uma grande vida interior e tender para a santidade)”. (Dolindo Ruotolo, sacerdote e místico católico, italiano, séc. XX)