Oitava dor de Maria: o sofrimento do Coração Eucarístico e do Coração Imaculado de sua Mãe

Há uma grande semelhança entre o Filho e a Mãe. Pela união dos Corações, assim como o filho sofreu a Mãe sofreu, e assim como o Filho sofre a Mãe sofre. O Coração do Filho sofre ainda hoje e por esta razão pede para ser reparado e consolado por seus amigos, exemplificados no Apóstolo São João. O mesmo vale para o Coração da Mãe, que também tem no discípulo amado um filho que faz reparações e a consola em suas dores: “Depois disse ao discípulo: “Esta é a tua mãe”. Daquela hora em diante, o discípulo a acolheu consigo”. Maria é a Senhora das Dores, cumprimento da profecia de Simeão: “Quanto a ti, uma espada te transpassará a alma”. Enquanto Mãe das Dores é costume falar das sete dores de Maria. Porém, pode-se falar hoje de uma oitava dor: a dor pelo modo como seu filho é tratado na Sagrada Eucaristia. Comunhões em pecado grave, sacrilégios, profanações, falta de zelo, blasfêmias, heresias, e assim por diante; tudo isto tem um gosto amargo para o Cristo-Eucaristia e fere com mais uma espada o coração amoroso de sua Mãe.

Na Santa Ceia, no Banquete Eucarístico, há Judas e há o Apóstolo São João. Um é o traidor, com duplicidade diabólica, simbolizada no beijo da traição, motivo de sofrimento para o amoroso Mestre, e o outro é o consolador, que reclina sua cabeça em direção ao Coração do Redentor e o acompanha virtuosamente no Calvário, motivo de alegria para o Divino Amigo. Posso ser um ou posso ser o outro. Para ser como o discípulo amado, posso recorrer sempre à Maria, sua Mãe Imaculada, refúgio dos pecadores, auxílio dos cristãos, aquela que esmagou a cabeça da serpente, a mesma serpente que seduziu Judas e o aconselhou a ir pelo caminho da maldade. Diz o Salmo 30: “A vós, porém, ó meu Senhor, eu me confio, e afirmo que só vós sois o meu Deus! Eu entrego em vossas mãos o meu destino; libertai-me do inimigo e do opressor!”.

Deus Pai disse à Santa Catarina de Sena: “Os sacramentos supõe que o homem os receba com disposições espirituais de desejo santo. Ora, este não provém do corpo, mas da alma. Em tal sentido afirmei que os sacramentos são espirituais e destinam-se à alma, que é incorpórea. Embora ministrados através do corpo, quem os recebe é o desejo da alma”.

Em essência a verdadeira religião é Católica, conforme toda a verdade, sem as marcas da serpente

O oitavo mandamento proíbe o falso testemunho e ensina não ir pelo caminho da mentira.  Quem aceita que a mentira existe mas nega que a verdade existe não tem razão, está nas trevas do engano, simplesmente porque se não há verdade, não há mentira. Sem a noção de verdade, a noção de mentira não faz sentido, porque a mentira, enquanto afirmação consciente de uma falsidade, supõe que algo é verdadeiro. Se não há verdade, ninguém mente nem jamais mentiu. Porém, por experiência podemos dizer que é inegável que existe mentira. Como degradados filhos de Eva, é comum que os homens mintam uns para os outros. Quando uma pessoa diz que nunca mentiu, a tendência é não acreditar em suas palavras, pois o senso comum nos diz que é quase impossível alguém que nunca mentiu. Assim, se posso dizer com razão que é inegável a existência da mentira, então é inegável a existência da verdade.  

Na mentira uma pessoa prefere “dizer que é o que não é” ou “dizer que não é o que é”. Assim, pertence à essência da mentira a negação da verdade, a inversão e a contradição. Negação, contradição e inversão: eis marcas importantes da mentira e do satanismo. Consequentemente, a mentira é uma negação de Deus, a Verdade Eterna, que tudo conhece totalmente e intimamente, do qual nada pode ser escondido.

A decadência humana começou com a aceitação de uma mentira dita pela serpente, “o pai da mentira”, conforme diz Cristo, a Verdade Encarnada. A serpente como “pai da mentira” é pai de negações e de perversões do que é verdade, consequentemente do que é bondade. Como nas tentações de Cristo, diz meias-verdades misturadas com falsidades importantes. Não é possível haver uma mentira absoluta, sem nada da realidade, sem nada do ser, porque isto significaria abolição da verdade, o que é impossível.

Os inimigos da descendência da serpente são os descendentes da mulher, um dos modos de dizer a batalha secular da do Espírito da verdade contra o espírito da falsidade. Em um de seus significados, esta mulher dita no Gênesis é a Nova Eva, a Imaculada, a Mãe da Verdade Encarnada, da verdadeira religião. A Encarnação redentora, fruto da bondade onipotente de Deus, começa com a anunciação do Arcanjo São Gabriel. O Arcanjo Gabriel é o anjo da verdade, aquele que diz toda a verdade em nome de Deus e Maria, a Virgem Santíssima, é aquela que acolhe integralmente a verdade recebida. Em ambos há o interesse pela verdade, o interesse em conhecê-la e o interesse de que seja conhecida. A relação do anjo e Maria gira em torno da encarnação da Verdade Vivente. Assim, toda a verdade no anjo, toda a verdade em Maria, toda a verdade em Cristo e toda a verdade no Espírito Santo. Contra as meias-verdades exige-se toda a verdade. E como Ele mesmo disse, toda a verdade é Cristo, está em Cristo. Neste sentido, em essência a verdadeira religião é Católica, conforme a totalidade, conforme toda a verdade, sem impurezas da falsidade, sem as marcas da serpente. É a religião do Espírito Santo, o Espírito da Verdade, vitorioso Senhor dos Exércitos.

Certa vez, em comentários sobre a vida de São Paulo Apóstolo, o Papa Bento XVI disse: “Num mundo no qual a mentira é poderosa, a verdade paga-se com o sofrimento. Quem quer evitar o sofrimento, mantê-lo distante de si, mantém distante a própria vida e a sua grandeza; não pode ser servo da verdade nem pode servir a fé”.

De todas as heresias e erros, livrai-nos, Espírito Santo!

A verdade não pode contradizer a verdade, não pode negar a si mesma; é uma lei do ser, de toda a realidade, neste sentido uma lei divina. Assim, o Salvador não veio abolir a Lei nem os Profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento. Todo “autêntico mensageiro de Cristo”, possuidor de seu Espírito, o Espírito da Verdade, tem que ter no coração o amor pela verdade e na mente a voz da verdade, para que de sua boca saiam palavras frutuosas, conforme o Evangelho Eterno. O Deus-homem disse que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade e que todo aquele que é da verdade ouve sua voz. Suas palavras são palavras da Verdade, sempre verdadeiras, dignas de crédito, com promessa de vida eterna, a Boa Nova do Reino de Deus. Em retribuição pelos seus esforços, por perseverarem na virtude e permanecerem na verdade, os amigos de Cristo serão conduzidos ao descanso eterno e experimentarão para sempre o “prazer santo”.

Na religião também há a batalha dos dois espíritos – o espirito da falsidade e o espirito da verdade. Como profetizado pelo profeta Isaías, Cristo é o Servo que veio trazer aos homens a verdadeira religião. O protestantismo, contra a Sabedoria Eterna, em oposição ao Logos Divino, é fragmentação, é confusão, é contradição, é multiplicidade ilegítima, é em essência o cristianismo como “um reino dividido contra si mesmo”. Nada disso pode vir do Logos Encarnado, que ensina que pelos frutos se conhece a árvore. O mesmo vale para o “ecumenismo” em sentido negativo ou para uma “fraternidade universal de religiões”. 

É dever dos mensageiros de Cristo, daqueles de quem se espera o ensinamento, como os seus apóstolos, sacerdotes e profetas, ensinar o que o Divino Mestre ensinou para a salvação de todos que queiram entrar no céu. Nenhuma perversão é permitida, pois já não seria o caminho da verdade e sim o caminho da falsidade. Heresia é engano. As heresias são negativas em si mesmas, enquanto falsidades, e também o são pelos seus frutos, o mais grave o inferno sem fim.

Na Ladainha do Espírito Santo é pedido: “De todas as heresias e erros, livrai-nos, Senhor”. E na oração a Nossa Senhora Auxiliadora é dito: “Só vós destruístes todas as heresias no mundo inteiro”.

Natividade de Maria, a Imaculada: grandeza da criação do Grande Criador

Deus, em sua majestosa infinitude, sem princípio nem fim, é aquele que tudo contém sem por nada ser contido, pois do contrário teria limites e não poderia ser infinito. Deus é o Ser Necessário, plenitude do Ser, de modo imutável, sem possibilidade de mudança, em certo sentido oposto ao puro nada, ao nada absoluto, que jamais houve e jamais haverá, porque é pura impossibilidade, o que significa indestrutivelmente a eternidade do ser. Deus é o puro Espírito Vivente, como um fogo puríssimo, eterno e vivificante. Deus é a pura Potência, a pura Sabedoria, a pura Bondade, o puro Amor. A bondade de Deus é eterna, sempre o acompanha.  Tudo o que Ele faz é bom, seu Ser é Bom, o Supremo Bem. Tudo o que é bom, em sua relativa bondade, é bom por participação na bondade de Deus. É a bondade de Deus que a todo instante me mantém na existência, ela envolve todo o meu ser, cada uma de minhas células.

Por ser sempre impossível, nada existe fora de Deus, sem a presença divina, o que não significa, como no engano panteísta, que tudo é em si mesmo divino. Corretamente compreendido, em essência eu sou o que sou na Mente Divina. O Deus que me criou é o Deus que disse meu nome, que significa dizer minha essência, um eu na humanidade. O Onipotente não cria por necessidade, como se fosse forçado a criar, e sim por liberdade, porque decide criar. Assim, em sua criação há decisão, e nela, como em todas as decisões possíveis, há preferência entre possibilidades. E se há preferência, há valor, consequentemente ausência de indiferença. Se Deus criou homem e mulher enquanto tais, então há neles, em essência, o valor de ser homem e o valor de ser mulher, o que vale para tudo o mais na ordem da criação.

A grandeza da criatura diz a grandeza do Criador, o que vale para Maria, a Imaculada. Ela, na Mente Divina desde a eternidade, é criada na bondade e pela bondade, em benefício da humanidade, pois dela nasceu o Salvador. “Minha alma engrandece ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua humilde serva. Por isso, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele é Onipotente e cujo nome é Santo”.

“O Caminho, a Verdade e a Vida”

Cristo disse ser ele mesmo “o Caminho, a Verdade e a Vida” e que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade. Isto significa que em seu adorável ser e em sua missão salvadora da humanidade decaída, escrava do diabólico, a pura verdade possui máxima importância. Se ele é o que diz ser, então a verdade é o caminho e o caminho é verdadeiro. No tempo, a vida verdadeira começa, permanece e atinge seu fim com a verdade, Verdade onipotente, Verdade onisciente, plenitude da luz, aniquilação das trevas. Em sua Carta São João Evangelista diz: “Não vos escrevi como se ignorásseis a verdade, mas porque a conheceis, e porque nenhuma mentira vem da verdade. Quem é mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o Anticristo, que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho não tem o Pai. Todo aquele que proclama o Filho tem também o Pai”.

Parte importantíssima da verdadeira religião são as verdades em que devemos crer com razão, no sentido em que diz são Pedro sobre o “estai preparados para dar a razão de vossa fé”. São verdades reveladas, especialmente por Cristo – aquele que é a plenitude da Revelação, que não veio abolir a Lei nem os Profetas – ensinadas pela Igreja Una e resumidas, em essência, no Credo Católico. Na mesma Carta, São João, o discípulo amado, diz: “Nisto se reconhece o Espírito de Deus: todo espírito que proclama que Jesus Cristo se encarnou é de Deus; todo espírito que não proclama Jesus esse não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo de cuja vinda tendes ouvido, e já está agora no mundo”.

Outra parte importante é o que podemos esperar, como promessa divina para aqueles que acreditaram e mantiveram a obediência à verdade, perseveraram virtuosamente até o fim da jornada. Assim, o ungido Davi diz no Salmo 26 (27): “Ao Senhor eu peço apenas uma coisa, e é só isto que eu desejo: habitar no santuário do Senhor por toda a minha vida; saborear a suavidade do Senhor e contemplá-lo no seu templo. Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver, na terra dos viventes. Espera no Senhor e tem coragem, espera no Senhor!”.

“Quem não quiser passar pela porta da Misericórdia, terá que passar pela porta da minha justiça” (Diário, 1146)

O Divino Cristo, com sua verdadeira Igreja, e a Sagrada Escritura, quando corretamente compreendida, ensinam duas coisas importantes sobre Deus, decisivas para a vida e o destino eterno de cada homem e para as sociedades: a Misericórdia Divina e a Justiça Divina, diferentes mas jamais contraditórias. Elas sempre significam a imutável Bondade de Deus, que não deixa de ser justo quando é misericordioso nem deixa de ser misericordioso quando é justo. A harmonia das perfeições de Deus é imutável, permanece sempre, sem possibilidade de mudança.

Em Cristo há tanto a face da Misericórdia como a face da Justiça. Ele é Salvador Misericordioso, no tempo da compaixão a todos concedido, e Justo Juiz, no dia da justiça, em que o peso da maldade culposa e o da bondade meritória serão pesados na balança da Verdade. Ele disse: “de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do Filho único de Deus. Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más”. Em outra parte, disse: “porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”.

Em nosso tempo, ensinamentos valiosos sobre esses dois importantes atributos divinos são aqueles contidos no Diário de Santa Faustina. Por exemplo: 

(1) “Meu Coração está repleto de grande misericórdia para com as almas, e especialmente para com os pobres pecadores. Oh! se pudessem compreender que Eu sou para eles o melhor Pai, que por eles jorrou do Meu Coração o Sangue e a Água como de uma fonte transbordante de misericórdia”.

(2) “Então, vi Nossa Senhora, que me disse:… Eu dei o Salvador ao mundo e, quanto a ti, deves falar ao mundo da Sua grande misericórdia, preparando-o para a Sua Segunda vinda, quando virá não como Salvador misericordioso, mas como Justo Juiz. Oh! Quão terrível será esse dia! Está decidido o dia da justiça, o dia da ira de Deus; os próprios Anjos tremem diante dele. Fala às almas dessa grande misericórdia, enquanto é tempo de compaixão…”.

A importância de vigiar e permanecer em “estado de graça”, na amizade divina

Cristo fala por meio de comparações como modo de compreendermos as realidades espirituais e as verdades do Evangelho Eterno que Ele deseja ensinar. Neste caso vale aquilo que certa vez Ele disse: “compreendei, pois, o que isto significa”. Ao contar a parábola das virgens previdentes e das imprevidentes, o Divino Mestre ensina a importância de vigiar.

A vigilância tem a ver com a consciência e com a atenção da consciência. Vigiar, em seus múltiplos significados, significa não deixar cair no esquecimento aquelas verdades importantes do Evangelho Eterno e não se deixar dominar pela dispersão na vida espiritual. Na medida do possível, com o auxílio divino, deve ser uma vigilância permanente, própria da pessoa prudente, que sabe o que passa e sabe o que permanece, que sabe o futuro certo da morte que a visitará e do Senhor que chegará, como Aquele que tudo conhece, sempre Misericordioso e sempre Justo em suas avaliações. Assim, diz São Paulo: “Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus, e já estais vivendo assim”; e diz o Salmo 96 que “o Senhor ama os que detestam a maldade, ele protege seus fiéis e suas vidas”.

Catolicamente, em seus múltiplos significados, a vigilância significa um combate para permanecer em “estado de graça”, na amizade divina, em oposição contínua aos pecados graves que posso cometer, com frutos mortíferos para a vida da alma. Cristo ensina: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação”. Porém, caso haja quedas nessa luta virtuosa, não deve haver desespero no combatente, pois no tempo da compaixão divina permanece a possibilidade de ir ao tribunal da Misericórdia, como é a Confissão sacramental, que de certo modo sempre antecede o tribunal da Justiça Divina, na imutável harmonia do verdadeiro Deus.

Assim, à Santa Faustina disse Cristo: “Meu Coração está repleto de grande misericórdia para com as almas, e especialmente para com os pobres pecadores. Oh! se pudessem compreender que Eu sou para eles o melhor Pai, que por eles jorrou do Meu Coração o Sangue e a Água como de uma fonte transbordante de misericórdia”. Disse também: “Quem não quiser passar pela porta da Misericórdia, terá que passar pela porta da minha justiça”.

“As palavras do Senhor são palavras sinceras, puras como a prata acrisolada”

São Paulo fala dos efeitos produzidos pela Palavra Divina naqueles que de fato abraçaram a fé, efeitos que são como sinais de reconhecimento, no sentido do “pelos seus frutos os reconhecereis” ensinado por Cristo. Como a Palavra de Deus é espírito e vida e como o Espírito é o Espírito da Verdade, então naquele que a abraçou ela vivifica a devida estima pela verdade e o devido desprezo pela falsidade, um dos significados do Primeiro Mandamento.   

Cristo, que é a Verdade e a Vida, fala contra a duplicidade dos mestres da Lei e dos fariseus, duplicidade que é um dos nomes da falsidade, pois contém contradição, negação. “Por fora pareceis justo… mas por dentro estais cheios de injustiça”. É como a duplicidade da língua da serpente, do pai da mentira, do espírito da falsidade.

Isto quer dizer que nos mestres da Lei, por não caminharem interiormente na verdade e na virtude, falta o domínio do Espírito, que é o domínio da verdade e da virtude. O Deus que ama a sinceridade no homem, pois ela é um dos nomes da verdade. Assim, diz o Salmo 9: “As palavras do Senhor são palavras sinceras, puras como a prata acrisolada, isenta de ganga, sete vezes depurada”. O Deus que ama o homem quer habitar nele como Espírito da Verdade, quer exercer em sua alma seu domínio frutuoso. Não há falsidade totalmente escondida, pois Deus, que é a Verdade Onipotente, tudo vê. Assim, diz Davi no Salmo 138: “Em que lugar me ocultarei de vosso espírito?… Se eu subir até os céus, ali estais; se eu descer até o abismo, estais presente”.

Como filhos daqueles que mataram os profetas, não acolheram a Cristo porque ele é a Verdade, foram cumplices na morte de Cristo porque ele é a Verdade. Para a falsidade, a verdade é como uma inimiga mortal. Para a verdade, a falsidade é como uma mancha horrenda em sua pureza. No homem, o trono é de uma ou da outra. Em toda a realidade, o trono é sempre da Verdade onipotente, pois o trono de Deus não é perecível como o trono dos homens, o domínio de Deus não é passageiro como o domínio dos homens. Assim, diz o Salmo 9: “O Senhor, porém, domina eternamente; num trono sólido, ele pronuncia seus julgamentos”.

Martírio de São João Batista: Num mundo em que a mentira é poderosa, a verdade paga-se com o sofrimento

Hoje a Igreja faz memória do martírio de São João Batista. Para este grandioso profeta vale aquilo que o Papa Bento XVI disse, em comentários sobre a vida de São Paulo Apóstolo: “Num mundo no qual a mentira é poderosa, a verdade paga-se com o sofrimento. Quem quer evitar o sofrimento, mantê-lo distante de si, mantém distante a própria vida e a sua grandeza; não pode ser servo da verdade nem pode servir a fé”.

São João Batista é o maior dos profetas abaixo de Cristo, que é antes de todos o verdadeiro profeta, o que não significa dizer que os demais profetas merecedores deste nome sejam falsos. Assim, de certo modo, todo verdadeiro profeta é subordinado a Cristo e participante de seu Espírito profético. O precursor, com sua vida exemplar e suas palavras cheias do fogo da divina Sabedoria, prepara as consciências para o Deus-homem, a Verdade encarnada, e ambos, ao seu modo, mostram à mente dos homens o que ela deve escolher e o que ela deve evitar se deseja ser realmente feliz e evitar a infelicidade eterna. Mostram que os homens devem escolher a verdade e evitar a falsidade, devem escolher a virtude e evitar o vício, devem escolher a vontade divina, sempre com máxima sabedoria, e evitar a vontade própria cheia de insensatez, e devem preferir a grandeza eterna que perdura para sempre às grandezas mundanas que se desfazem totalmente na morte, deixando para a alma tão-somente um vazio sem fim. 

São João Batista é o profeta da verdade contra a falsidade, da Sabedoria eterna contra a insensatez humana, da Bondade divina contra a maldade diabólica, da virtude amiga do homem contra o vício destruidor das almas. Nisto ele se assemelha a Cristo, sem ser o Cristo, do qual não é digno de sequer amarrar as sandálias. Ele é o amigo do Esposo, sem ser o esposo, e naquela comunhão que há na verdadeira amizade, eles essencialmente “amam a mesma coisa e detestam a mesma coisa”. O Espírito que nele habita é o Espírito de Cristo, o Espírito de todos os verdadeiros profetas, o Espírito da Verdade, a Verdade eterna e onipotente.

São João Batista é, por vontade divina, o profeta da correção, que remove os obstáculos, que prepara o caminho, que dispõe mentes e corações para os tesouros que lhes esperam. Quando ele diz convertei-vos, isto significa “transformai-vos no que é benéfico se transformar”, “corrigi-vos no que é preciso se corrigir”, para receberem a salvação que vem Deus, para que sejam como a terra boa que receberá as sementes da divindade e dará frutos de vida eterna.

São João Batista ensina a verdadeira religião e prepara para a verdadeira religião, que é o Cristo e sua autêntica Igreja, assim como ensina a verdade e prepara para a Verdade. Nele, em oposição ao que é falso, o que é verdadeiro tem máxima importância, ante de tudo se diz respeito à religião, ao caminho de salvação eterna revelado pelo Criador. Neste sentido, como seus antecessores no Povo de Israel, entre os quais está o profeta Jeremias, ele é o profeta do verdadeiro Deus e da verdadeira religião.

Assim, sem se comportarem como Deus, dando sentenças de condenação das almas que cabem apenas à Consciência divina, sem contradizer aquilo que o Divino Jesus ensina a este respeito, como verdadeiros porta-vozes do Criador, como verdadeiros profetas e apóstolos, com o poder que lhes foi concedido, dizem os julgamentos divinos, comunicam as avaliações divinas que o próprio Deus quis. Assim, disse a Jeremias: “Levanta-te e comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer”. Antes de Cristo, com Cristo e depois de Cristo, por bondade dizem o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o correto e o incorreto, com a marca do sofrimento em suas vidas. Como diz Davi no Salmo 70: “Minha boca anunciará vossa justiça!”

Todo ser, todo poder, todo conhecimento e toda felicidade é em Deus: “Vossa Bondade é para sempre!”

Santo Agostinho

Deus em sua eternidade é sem princípio nem fim, não há nada que possa ser anterior ou posterior a ele. Deus é aquele que tudo conhece totalmente e intimamente, pois nada escapa de sua Consciência onisciente, e todas as criaturas capazes de conhecer conhecem em Deus, de modo que minha consciência e os conhecimentos que nela há são dons do Criador. Assim, diz São Paulo: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus!”

Deus é aquele que tudo contém e por nada é contido, é o Criador de tudo o que existe, e tudo lhe pertence por direito. Do mesmo modo que todo conhecer é conhecer em Deus, todo ser é ser em Deus. Assim, diz São Paulo: “Na verdade, tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória para sempre”.

Deus é aquele que tudo pode, possui poder Onipotente. Sempre cumpre o que promete, sempre pode terminar uma obra começada e pode distribuir o seu Poder. Assim diz o salmista: “Completai em mim a obra começada!… fizestes muito mais que prometestes”. E Cristo diz para São Pedro, o Apóstolo, sobre sua Igreja: “…E o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.  

Deus o Ser Infinito, a plenitude do ser, então nele há necessariamente felicidade em máximo grau, felicidade eterna. A presença de Deus, como presença percebida, é a presença da felicidade, assim a visão imediata da Essência Divina Vivente, a experiência imediata de Deus, como que absorve totalmente o ser da pessoa, num oceano de felicidade. Assim como é próprio do sol aquecer e iluminar, é próprio de Deus irradiar felicidade: a luz de Deus é a luz da felicidade. Diz Santo Agostinho: “A felicidade da vida é a posse da verdade, ou seja, a posse de Ti que és a Verdade”.

Todo ser, todo poder, todo conhecimento e toda felicidade é em Deus. Assim, se sou, só sou em Deus, e se posso, só posso em Deus, e se conheço, só conheço em Deus, e se sou feliz, só sou feliz em Deus, sempre por pura bondade do Criador, da Trindade Eterna. Diz o Salmo 137: “Eu agradeço vosso amor, vossa verdade”, “ó Senhor, vossa bondade é para sempre!”.