
“Naquele tempo, chegando Jesus e seus discípulos junto da multidão, um homem aproximou-se de Jesus, ajoelhou-se e disse: “Senhor, tem piedade do meu filho. Ele é epilético, e sofre ataques tão fortes que muitas vezes cai no fogo ou na água. Levei-o aos teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo!” Jesus respondeu: “Ó gente sem fé e perversa! Até quando deverei ficar convosco? Até quando vos suportarei? Trazei aqui o menino”. Então Jesus o ameaçou e o demônio saiu dele. Na mesma hora o menino ficou curado. Então, os discípulos aproximaram-se de Jesus e lhe perguntaram em particular: “Por que nós não conseguimos expulsar o demônio?” Jesus respondeu: “Porque a vossa fé é demasiado pequena. Em verdade vos digo, se vós tiverdes fé do tamanho de uma semente de mostarda, direis a esta montanha: ‘Vai daqui para lá’ e ela irá. E nada vos será impossível”. (Mt 17,14-20)
Sobre essa passagem, alguns pontos:
1. Temas e questões
(a) Nela há o tema da misericórdia, o tema das causas espirituais de certas doenças humanas, o tema dos demônios e suas ações possíveis, o tema da fé autêntica e seu poder. (b) Algumas questões: Por que Deus permite certas ações maléficas dos demônios? Por que os demônios obedecem a Cristo? O que é a misericórdia e quais são suas condições? O que é a fé e por que ela pode mover montanhas? O que significa “nada vos será impossível”?
2. Algumas verdades naturais implicadas, na linha de certos filósofos escolásticos medievais
(a) O mal é ausência de bem devido; (b) O contraditório é impossível; (c) Aquilo que é intrinsecamente impossível não pode receber existência; (d) O possível, enquanto possível, não implica contradição; (e) Todo agente age enquanto está em ato (ou existe).
3. Natureza das coisas (essência de fenômenos religiosos)
(a) Sobre a misericórdia. Sob o aspecto ontológico do essencialmente necessário, a misericórdia, pelos casos assim chamados na Sagrada Escritura, possui características essenciais, condições necessárias de possibilidade e leis necessárias fundadas em sua essência. Alguns exemplos: (I) a misericórdia implica relação entre um misericordioso e um miserável, com certa ausência de poder neste e certa presença de poder naquele; (II) o miserável é aquele privado de certo bem, e o misericordioso é aquele que age com intenção benevolente de providenciar o bem faltante. Sem isso e outras coisas, não há misericórdia.
4. Comentário religioso
(a) A fé religiosa, no âmbito cristão, possui múltiplos aspectos e assim pode ser considerada. Essencialmente, como ensina Santo Tomás, em comunhão com a Igreja, ela deve ser entendida como um ato do entendimento humano que aceita a verdade divina revelada, por uma decisão da vontade, movida pela graça de Deus, que é sua condição necessária, enquanto virtude teologal. Assim, da parte do homem, a fé é, antes de tudo, um ato intelectual com participação decisiva da vontade, e não um sentimento religioso ou estado afetivo, embora possa estar acompanhada por ele, por exemplo com consolações dadas por Deus; porém, o mesmo Deus pode privar uma alma de consolações e deixá-la em total aridez espiritual, para fazê-la progredir nas virtudes, acumular méritos para si e obter graças para outras almas.
(b) A fé gira em torno da verdade e implica naturalmente o que deve ser crido e o que deve ser feito para obter os bens que por meio dela se podem obter, conforme a Vontade divina. Esse é o aspecto da obediência e o da utilidade da fé. Outro aspecto é o de seu poder, enquanto, de certo modo, ela faz o poder divino agir em favor daquele que a exerce com grandeza. Exemplo disso é São Domingos de Gusmão, apóstolo de Cristo e da Imaculada, o qual, por uma fé grandiosa, fez coisas grandiosas.





